terça-feira, 31 de maio de 2011

assombração sabe pra quem aparece



Nesse mundo há tanta coisa que chamam de amor sem ser que, quando ele chega pra valer, damos as costas, pensando que não é. Pois é.

.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

rir é coisa séria



cada qual com seu  juízo
não me é um lugar o paraíso
é um estado de espírito indiviso
de pouco siso e muito riso

.

sábado, 28 de maio de 2011

coisas da vida




Reação espontânea

Conheceram-se no laboratório. Ela, base forte; ele, ácido fraco.
Aplicaram entropia, ebulição, fusão.
Quando a re(l)ação saturou, separaram.
Faltou química.

* - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - *

Pré-datado

Em prestações: o financiamento do carro, a escola do filho, a mensalidade da academia, a roupa nova.
Só o amor ali, a lhe exigir pagamento à vista.
E em espécie.

* - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - *

Franco atirador

Era exímio no seu mister. Com tiros em salvas, mirava várias a um só tempo.
Certeiro, atingia o coração das vítimas.
Até o dia em que errou o alvo.
Ninguém foi ao enterro.
Isso é que dá abater quem choraria a nossa morte.

* - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - *

redundante_mente




Quem concorda, consente

Troca-se propaganda enganosa
por falso pre_texto
de aventura venturosa.

* - * - * - * - * - *

Metades iguais

troco certeza absoluta
por abertura inaugural
a meu critério pessoal.

* - * - * - * - * - * -

Consenso geral

Trocar planos futuros
por versão definitiva, última:
que novidade inédita!

* - * - * - * - * - *

Opção de escolha

Não troco nada
pelo que sinto por você
É cego ou não pode ver?

* - * - * - * - * - *

quinta-feira, 26 de maio de 2011

a vida não é conto de fadas, menina



Mais vale um patinho feio na mão do que dois pequenos príncipes voando.

.

Conversa (a)fiada



“Nossas vozes secas, quando
Juntos balbuciamos
São fracas, carentes de sentido”
Os homens ocos - TS Eliot




Deve ser terrível o destino dos homens ocos: o que cada um tem dentro de si - memórias, formação cultural, relações humanas - preenche e dá sentido à existência. Por não sermos ocos, precisamos comunicar o que sentimos, o que nos agrada e incomoda. Diálogos nascem da diferença do pensamento de quem entra em contato com o pensamento do outro. Das palavras, surgem as relações: família, amigos, amores, negócios. Conversar cria laços afetivos reais, de entendimento e cumplicidade.

Sabendo disto, as instituições autoritárias sempre tentaram impedir o contato verbal. No regime nazista, separavam-se os prisioneiros de mesma língua com o duplo objetivo de tortura mental pelo isolamento e proteção do regime. A estratégia se repetiu nos porões das ditaduras sul-americanas e ainda ocorre em nações que isolam seus cidadãos do restante do mundo. A conversa é ameaçadora porque dela podem surgir projetos que subvertam a realidade que o outro deseja inalterada.

Problema maior é quando nos tornamos nossos próprios algozes, introjetando a proibição da troca de pensamentos e idéias. Num universo tecnológico de celulares e mensagens instantâneas, corre-se o risco de nos tornarmos incomunicáveis. O pavor do contato e da relação mais íntima é justificado, superficialmente, com o “inferno são os outros” de Sartre, sem nos dar conta, lá no fundo, que também é nossa a carteirinha de sócio benemérito das terras de Lúcifer. Fechamo-nos em um mundo particular irreal para nos queixarmos pouco depois do peso da solidão.

Não é que não falemos. Conversas fiadas desfiam na festa, no encontro casual, no trabalho, no mundo virtual... Acontece em casa quando atemos à narração dos fatos do dia, sem troca de percepções e emoções. Ocorre quando alguém tenta nos revelar algo de si e, sem perceber, distraímos da escuta para elaborar uma boa resposta para a fala do outro. Quem nunca foi interrompido por um “eu sei” prepotente, que inviabilizou descobertas? Quem nunca abreviou um raciocínio ao perceber um olhar impaciente fitando o correr do tempo?

Reverter o cruel destino dos homens ocos passa inevitavelmente pelo reaprendizado da boa fala. Primeiro com nossos botões, que o pensamento é o diálogo do espírito consigo próprio, para descobrir o que temos a dizer. Depois resgatando o verdadeiro valor de certas palavras que carregam em si a história da humanidade. E por fim, abrindo ouvidos e espírito à experiência única de penetrar na alma do outro.

Atribuir sentido às palavras - nossas e alheias - é agregar sentido à vida.

Nossa sanidade agradece.
.

Pra enrolar a língua

( da Malu e da Martina )






Na moda

Já que tinha que comprar
Trouxe logo a jaquetinha
E cinto pra combinar
Com a minha sandalinha.

 - * - * - * - * - * -

Portuguesa, com certeza

Camões cantou “alma minha”
E a crítica quer saber
Se Camões comeu maminha
Ou versou sem perceber.

 - * - * - * - * - * - * -

Era uma vez

É bigoduda, safada
Essa fada da estória!
É a bruxa disfarçada
Se não me falha a memória.
.
* - * - * - * - * - * - * -

Seu garçon, faz o favor

Vez passada quis um sapo
Hoje quero vespa assada
Traga água, guardanapo
E lagartixa grelhada.

* - * - * - * - * -

Tá na hora

Menina, vá já pra cama!
Você sabe que horas são?
Dê-me um beijo, não reclama
Não esqueça a oração.

- * - * - * - * - * -

Brincadeira

Quis saber se ela tinha
Um brinco de diamante
Ela tem, mas é latinha
Que latinha mais brilhante!

* - * - * - * - * - * - * -

Lavadeiras

Já que uma mão a outra lava,
Quem vai lavar o mamão?
“ Eu não sei”, ela falava
“ Ora, vá lamber sabão”.

- * - * - * - * - * - * - *

No Éden

Eva e Adão namoravam
Carinho, beijo na mão
Os bichos atormentavam:
“Lá vai Eva e eu vi Adão”.
.

terça-feira, 24 de maio de 2011

panis et circensis

  ( com Aléxia Alvim)




POEMETOS TRAGICÔMICOS


I - Malabarista

o gringo
degringolou:
restou o gigolô.

- * - * - * - *

II - Bailarina

sem tutu,
apelou pra vodu:
golpe do Baú.

- * - * - * - *

III - Homem bala

Cômica química, vide bula:
por amor à Bela,
tornou-se tatu bola.

 * - * - * - *

IV - Domadora

Domada pelo homem fera,
gestou, engordou
agora é es_fera.

- * - * - * - *

V - Trapezista

na corda bamba,
quedou-se à coca
de Cochabamba.

- * - * - * - *

VI - Mágico

pagou mico,
aposentou o coelho:
virou Cartola.

- * - * - * - *

VII - Palhaço

perdeu o pé,
virou a pá,
viciou no pó.

 * - * - * - *

um doce pra quem responder

O homem perfeito e a mulher perfeita se conheceram. Logo formaram um casal mais que perfeito.
Um dia, o casal encontrou Papai Noel que pediu ajuda para distribuir os presentes de Natal para as crianças do mundo.
Por serem perfeitos, os dois aceitaram ajudar mais que depressa.
Acontece que o homem perfeito dirigia trenós muito mal, o que ocasionou um acidente feio com os três.

Pergunta-se: dos três - homem perfeito, mulher perfeita e Papai Noel -, quem sobreviveu?


Resposta: a mulher perfeita
               (  homem perfeito e Papai Noel não existem)

.

mundão véio sem portera

 Coisa que não acaba no mundo é gente besta
e pau seco. Etc, etc, etc
Maior que o infinito é a encomenda.”
Manoel de Barros





coisa que não acaba no mundo
é gente besta, metida a prosa
é cacto travestido de rosa
é mente rasa, que posa de funda
é vivo de alma moribunda

coisa que não acaba no mundo
é coisa que acaba com o mundo
maior que o infinito, poeta
só o amor
maior que a encomenda
.

sábado, 21 de maio de 2011

olho de peixe



vez por outra te enxoto
depois arrependo,
imploro, choro

fazer o quê
se quando te miro
me (m)olho?
.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

estar de lua

( por Márcio Ares da Silva )



Vai que a noite não foi boa
E o dia tarde a caminho
Nós somos um quarto à toa
Que ainda resta, meio à míngua
Querendo um quarto crescente
Querendo cheio de novo
O clarão que fora lindo
O meu olho no seu olho
Minha língua em sua língua

Somos um quarto de hora
Somos um quarto de rua
Somos um quato da história
Escrito com a noite nua
Somos o dito e o não dito
O que eu penso e o que tu pensas
Somos um quarto suspenso
De lua, amor infinito

Márcio Ares, maio/2011

mil e uma utilidades



quando você partiu
putaquipariu
meu mundinho perfeito ruiu
 tomou doril o meu bombril

com o tempo aprendi
a sintonizar sinal de tv confuso
desapertar parafuso
tirar ferrugem
desobstruir canaleta
substituir fusivel de baixa amperagem
limpar aro de bicicleta
.
você precisa me ver agora :
sei até aplicar ladrilho
hoje procuro pro amanhã
espírito jovem, destemido
que me traga muito brilho
um tipo assim... assolan

.

pau a pau

( perna de pau amador x cara de pau profissional)





só entra em bola dividida
quem ama_dor multiplicada
pois o placar final, querida
é sempre noves fora, nada
( um nada pra cada lado ) 

.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

impotência



 perdi o saco
pra pau mandado
e cara de pau
.

Questão de a(l)titude



Minha filha contou o problema: nos preparativos para a quadrilha junina na escola, a ordem era que os meninos convidassem as colegas para formarem pares. E ela estava certa que ninguém a convidaria. Tinha lá suas razões: aos 13 anos, com 1,79m, é a mais alta da escola. Inteira.


Sei bem como é isso, de certas lembranças nunca nos livramos. Aos 13 anos, eu já media os atuais 1,70 m. Na escola, era a porta-bandeira efetiva dos desfiles de 7 de setembro. Em casa, Olívia Palito. Para a turma, Vara-Pau e nas festas, o chá-de-cadeira era inevitável. Sem falar das piadinhas infames. É bom esclarecer que ter 1,70 m naquela época era muito diferente de hoje, tempo de gigantes. E ter 1,70 m numa família de pessoas baixas incluía regras absurdas como evitar praticar esportes para não estimular o crescimento e dar tratos à bola para se destacar. Sem muitas opções, virei CDF, a versão antiga dos nerd.

Tinha a questão dos pés. Comprar sapatos 38 era tarefa para desbravador. Virei Olívia-Palito-Pé-de-Anjo. Tinha a questão da postura. Mulher alta, quando encurva-se para adequar à altura dos outros mortais, fica corcunda. Andando de cabeça baixa, é falsa humilde. Com coluna e cabeça eretas, é metida. Eu era do tipo empinado: virei Olívia-Palito-Pé-de-Anjo-Vara-Pau-CDF-Metida.

Ao entrar numa festa, todos me observavam – um tormento para a adolescente tímida. Sem convite para dançar, eu ficava sentada para não dar na vista. Só que garota alta e tímida, quando fica encalhada, todo mundo percebe.

Adolescente, cheguei a desejar ardentemente a senitude: na velhice, pela reacomodação das vértebras, diminui-se até 2 cm. Mais tarde, superada a crise, tive uma juventude normal: encorpei, dancei, namorei, casei... Suspeito que a indústria tem acrescido hormônio de crescimento e fermento no leite, danoninho, chocolates e biscoitos há décadas. Êta juventude alta! Todas em casa são mais altas que eu. A diferença é que não ganharam apelidos, praticam esportes e compram calçados número 40 sem dificuldade.

Preocupada com o destino solitário da menina na dança junina, aconselhei-me com as bases. As filhas mais velhas, experientes, acharam que estávamos fazendo tempestade em copo dágua:
- É só escolher o menino com quem você quer dançar e convidá-lo, ora!

Foi assim que a menina conseguiu seu par. Salva pela independência e auto-confiança femininas do século XXI.

Respiro, aliviada. Posso enfim me dedicar à minha mais recente preocupação: evitar o crescimento em largura. Nada que uma dieta equilibrada, corrida cinco vezes por semana e um bom transplante de cérebro para dar cabo de tanta insegurança não consigam resolver.
.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

filosofia rural


vaca que diz que só vai pro brejo
quando tem boi na linha
 é vaquinha de presépio
ou conta história pra boi dormir
.

trem bom


A moça se aprontou toda pra ir ao baile.
Lá um caipira muito suado convidou-a pra dançar.
Pra não caçar confusão, ela aceitou.
Lá pelas tantas, no meio do forrozão ela comenta:
                       - Você sua, hein?
O caipira lasca-lhe um beijo caprichado. E completa:
                       - Também vô sê seu, princesa
.

O que se é


( por Márcio Ares da Silva *)



Tanto tempo de vida vivi por viver.
Nada criei, em nada cri, nada inventei que valesse a pena.
E, diferente de antes, muito antes, pouco fui feliz.
Tudo era inútil e pequeno. Urgente era partir.


Eu sou o homem que parte, para a pior parte,
e o menino que fica, face a face, com o melhor que fica.
As metades que me atravessam
são essa metade que resta e essa metade que insiste,
o menino que parte, o homem que fica.


Márcio Ares maio/2011


Márcio Ares é mineiro, filósofo, licenciado em letras, compositor, poeta, e policial militar.

terça-feira, 17 de maio de 2011

penso, logo abuso

abuso
"quem faz da palavra
gato e sapato
não vai além dos substantivos"
Fouad Talal




toda palavra
é que nem parafuso:
tem as de uso contuso
aquelas multiuso
umas de uso inconcluso
outras já em desuso

bom é quando se cruza
a barreira conceitual
pra conduzir a rima intrusa
rumo ao transcendental

tal qual parafuso e rosca
Talal, nenhuma intenção é musa
pra  palavra tosca

.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

lero lero



tenho muito que não quero
não tenho tudo que quero
não quero cabelos brancos
nem rugas em volta dos olhos
quero olhares francos
quero voltar a Abrolhos
prefiro a rosa dos ventos
não quero a Rosa de Hiroshima
não quero lugar barulhento
quero nadar rio acima
dispenso amor ciumento
não quero vida de artista
quero ser do mundo turista
fazer da paz meu alento
quero revisitar Paris
reler Machado de Assis
céu, inferno, purgatório
esquecer o passado inglório
quero comer um bom bocado
quero pra sempre ser magra
em Lisboa viver meu fado
nunca pegar ninguém no flagra
quero aprender sapateado
balançar na Torre de Pisa
quero quero tanta coisa
mas chega de lero lero
sei lá se um dia esmoreço
e quedo de asa caída
no cômputo geral da vida
tenho menos do que quero
muito mais do que mereço


* diálogo com o poema "Belo belo" de Manuel Bandeira

domingo, 15 de maio de 2011

sin


desejar não é feio
pecado é furtar
o coração alheio
e não poder carregar
.

tempestade em copo dágua



saudade dos desva_rios
     da prea_mar
tantas águas depois rolaram
ele ri_acho que vou chorar

.

ave, maria



pra ser bem sincero
de beijar flor não sei se gosto
seu beijo, aposto
tem gosto de quero-quero

.

sábado, 14 de maio de 2011

pra quem dis_puta



âmago de pedra polida
por vida lasciva
e pedra da sorte lascada
.

suicida



é fogo a paixão
 se joga do vazio
 pro fio
de alta te(n)são
.

Não bate que eu gamo

Saudade é o amor que fica

 


Súbito a saudade bateu.
Apanhei feio.
Surra de Cipó.
.

humor vítreo



pra ser mais transparente
deu pra comer vidro
moído, temperado,
pastilha e caco

deu por si amorfa,
inodora, incolor
 olhar vidrado,
trans_lúcido

.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

sétimo céu




sabe o que eu mais queria
ter pra quem dizer te amo
ter a quem chamar, ô mania
de amor,  meu doce, querido,
 talvez até um coração partido
.
seria gostoso demais
ter pra beijar uma boca
t(r)ocar cheiros, travessa
agradar meu amor feito louca
virar de ponta cabeça
que bobagem é desgraça pouca

enquanto espero esse dia
isso ninguém me tira
  invento mil fantasias
nesse sonho borralheiro
até finjo ver poesia
no blindex do banheiro

.

Eu só acreditaria num deus que soubesse dançar ( ... )
(...) sem a música, a vida seria um erro
                                                              Friedrich Nietzsche
.

triversado

( por Márcio Ares da Silva)



PACIÊNCIA FELINA

sete vidas eu daria a ti
para que as tristezas fossem cumpridas
e a alegria fosse infinita
sete vidas eu existiria assim
querendo te ver sorrir

          *

TEMPO ANTIGO EM PROCISSÃO

escrevo maio e minhã mãe maria
oferta à primavera
o pastor que eu era
na coroação da virgem

            *

ALVIM MARIA

de novo escrevo para maio
para uma outra maria
essa, colega de farda,
amiga um tanto tardia
feliz que reza à feliz primavera
mais feliz se faria

           *
                                  Márcio Ares da Silva maio/2011
http://www.marcioares.blogspot.com/

segunda-feira, 9 de maio de 2011

poeminha angelical




 
 enquanto duvido
se anjo existe
meu anjo de guarda
 aguarda
arcanjo, querubim
ou apenas
um ser_a_fim
pra mim


.

domingo, 8 de maio de 2011

Para acontecer poeta

( por Márcio Ares da Silva)



"O poeta é um mundo encerrado num homem" Victor Hugo


Se esse verso fácil é poesia, eu sou - reconheço e confesso - uma fraude.
E nenhuma graça me justifica.
Quero a palavra que engasga e faz doer a alma, nublar a minha paz por
dias infinitos.
Quero a incerta ordem da página,
o risco indormido, além da madrugada,
o inquieto imaginário de fantasmas.
e, por último, justo e exato, quero que o verso não seja fácil
porque de escuro se veste a claridade
dizendo rosa o espinho disfarce.

À força da mão meu coração que se dobre
e sangre arco-íris no verso encantado.
E enquanto calado eu fique, seja este o tempo que me baste.
Tudo o mais é vontade por dizer, é mar sem barco ou estrelas, a vida
sem crer, ânsia de se libertar.

Seja meu o instante sem saber. Doa a mim a palavra por inventar.
Não quero fácil existir, simplesmente,
e dizer que existo, igual a tudo, para toda gente,
sem essa coisa inominável a que se chama, através dos tempos,
talvez poesia, talvez amor, talvez demência.

Que eu, filho do mais doído mistério,
traga à luz as palavras primeiras, únicas, estranhas ou belas
a inaugurar esse parto dos homens, grávido que estou de longes, ondes e quandos
que ainda não se fizeram.

Eu vou parir Deus com o meu verso.
E vou parir o demônio.
E vou engravidar os nomes que se puserem no caminho desse ofício, ou
dessa coragem,
para que a melodia dos nomes desperte o grito alado das palavras.
Para que eu nunca, jamais, em tempo algum me contente
com o instante fácil do verso
e não me confesse uma fraude.

Márcio Ares da Silva maio/2011
http://www.marcioares.blogspot.com/

sábado, 7 de maio de 2011

Tardio


há dias adio
para mais adiante
o instante de admitir
nada mais adianta
entonces,
 adiós
.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

das dores de poeta



o poeta é um fingidor confuso,
 um criador contrito,
(pa)lavrador conciso,
contador contido,
fustigador confesso
poesia é passarinho 
com_passado,
com_passivo,
no peito
comigo, contigo,
em tudo

.

prato feito

( rondel )



Eu sou uma pessoa comum
Carne, ossos, coração, memória
Abafo prantos um a um
Ao vapor da vida ilusória.

Defumo versos em jejum
Esfumo a dor, contraditória
Eu sou uma pessoa comum
Carne, ossos, coração, memória.

Graças a Atala, Bono, Oxum
Saboreio, al dente, a vitória
Insucessos, flambo-os ao rum
Dou minha mão à palmatória:
Eu sou uma pessoa comum.

.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Segura, peão



"Esses dias, o mundo está parecendo jogo de xadrez:

Sexta-feira só falavam do rei e da rainha.
Domingo beatificaram o bispo.
Depois deram xeque-mate em quem derrubou as duas torres.
... E eu aqui de peão, trabalhando que nem um cavalo..."

( recebi por e-mail esse resumão da semana; autoria desconhecida)

terça-feira, 3 de maio de 2011

Vida e morte severina



Capiau desolado explica para o técnico o defeito da TV:
- Ela sortô um fuguinho atrás,  foi perdeno as feição e parô de proseá.

.

Cordel da mulher zangada




Quando me bate uma zanga
abro o peito, solto a franga
falo pelos cotovelos
mostro a garra, eriço os pelos
não é que eu seja aloprada:
pra brigar eu dou boiada

Quando fico p da vida
armo o que até Deus duvida
faço bico, ofendo, emburro
em ponta de faca esmurro
eu não fico só de mal
mato a cobra e mostro o pau

Dizem uns que sou histérica
que conter-me é lida homérica
outros que sou barraqueira
é intriga da oposição:
desgraça pouca é besteira
sou mulher de opinião

Muita calma nessa hora
senão a fera apavora
dou chilique, faniquito
arrebento e arrebito
viro bicho, incrível Hulk
da finesse, adeus o look

Não mexa comigo, moço
que eu não engulo caroço
no facebook e orkut
me vingo, no saco um chute
posso não ter muito músculo
mas sou mulHer, agá maiúsculo



este cordel faz parte do exercício coletivo do RL "a mulher zangada"
não é autobiográfico: até que sou bem calminha

.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

linha a linha



estava escrito nas estrelas
e nas linhas das nossas mãos
os entrenós ponto e linha
o entrelace entre_ mentes
o alinhavo estelar
das entrelinhas

.