terça-feira, 31 de maio de 2011
segunda-feira, 30 de maio de 2011
sábado, 28 de maio de 2011
coisas da vida
Reação espontânea
Conheceram-se no laboratório. Ela, base forte; ele, ácido fraco.
Aplicaram entropia, ebulição, fusão.
Quando a re(l)ação saturou, separaram.
Faltou química.
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Pré-datado
Em prestações: o financiamento do carro, a escola do filho, a mensalidade da academia, a roupa nova.
Só o amor ali, a lhe exigir pagamento à vista.
E em espécie.
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Franco atirador
Era exímio no seu mister. Com tiros em salvas, mirava várias a um só tempo.
Certeiro, atingia o coração das vítimas.
Até o dia em que errou o alvo.
Ninguém foi ao enterro.
Isso é que dá abater quem choraria a nossa morte.
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redundante_mente
Quem concorda, consente
Troca-se propaganda enganosa
por falso pre_texto
de aventura venturosa.
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Metades iguais
troco certeza absoluta
por abertura inaugural
a meu critério pessoal.
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Consenso geral
Trocar planos futuros
por versão definitiva, última:
que novidade inédita!
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Opção de escolha
Não troco nada
pelo que sinto por você
É cego ou não pode ver?
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quinta-feira, 26 de maio de 2011
Conversa (a)fiada
“Nossas vozes secas, quando
Juntos balbuciamos
São fracas, carentes de sentido”
Os homens ocos - TS Eliot
Deve ser terrível o destino dos homens ocos: o que cada um tem dentro de si - memórias, formação cultural, relações humanas - preenche e dá sentido à existência. Por não sermos ocos, precisamos comunicar o que sentimos, o que nos agrada e incomoda. Diálogos nascem da diferença do pensamento de quem entra em contato com o pensamento do outro. Das palavras, surgem as relações: família, amigos, amores, negócios. Conversar cria laços afetivos reais, de entendimento e cumplicidade.
Sabendo disto, as instituições autoritárias sempre tentaram impedir o contato verbal. No regime nazista, separavam-se os prisioneiros de mesma língua com o duplo objetivo de tortura mental pelo isolamento e proteção do regime. A estratégia se repetiu nos porões das ditaduras sul-americanas e ainda ocorre em nações que isolam seus cidadãos do restante do mundo. A conversa é ameaçadora porque dela podem surgir projetos que subvertam a realidade que o outro deseja inalterada.
Problema maior é quando nos tornamos nossos próprios algozes, introjetando a proibição da troca de pensamentos e idéias. Num universo tecnológico de celulares e mensagens instantâneas, corre-se o risco de nos tornarmos incomunicáveis. O pavor do contato e da relação mais íntima é justificado, superficialmente, com o “inferno são os outros” de Sartre, sem nos dar conta, lá no fundo, que também é nossa a carteirinha de sócio benemérito das terras de Lúcifer. Fechamo-nos em um mundo particular irreal para nos queixarmos pouco depois do peso da solidão.
Não é que não falemos. Conversas fiadas desfiam na festa, no encontro casual, no trabalho, no mundo virtual... Acontece em casa quando atemos à narração dos fatos do dia, sem troca de percepções e emoções. Ocorre quando alguém tenta nos revelar algo de si e, sem perceber, distraímos da escuta para elaborar uma boa resposta para a fala do outro. Quem nunca foi interrompido por um “eu sei” prepotente, que inviabilizou descobertas? Quem nunca abreviou um raciocínio ao perceber um olhar impaciente fitando o correr do tempo?
Reverter o cruel destino dos homens ocos passa inevitavelmente pelo reaprendizado da boa fala. Primeiro com nossos botões, que o pensamento é o diálogo do espírito consigo próprio, para descobrir o que temos a dizer. Depois resgatando o verdadeiro valor de certas palavras que carregam em si a história da humanidade. E por fim, abrindo ouvidos e espírito à experiência única de penetrar na alma do outro.
Atribuir sentido às palavras - nossas e alheias - é agregar sentido à vida.
Nossa sanidade agradece.
.
Pra enrolar a língua
( da Malu e da Martina )
Na moda
Já que tinha que comprar
Trouxe logo a jaquetinha
E cinto pra combinar
Com a minha sandalinha.
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Portuguesa, com certeza
Camões cantou “alma minha”
E a crítica quer saber
Se Camões comeu maminha
Ou versou sem perceber.
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Era uma vez
É bigoduda, safada
Essa fada da estória!
É a bruxa disfarçada
Se não me falha a memória.
.
* - * - * - * - * - * - * -
Seu garçon, faz o favor
Vez passada quis um sapo
Hoje quero vespa assada
Traga água, guardanapo
E lagartixa grelhada.
* - * - * - * - * -
Tá na hora
Menina, vá já pra cama!
Você sabe que horas são?
Dê-me um beijo, não reclama
Não esqueça a oração.
- * - * - * - * - * -
Brincadeira
Quis saber se ela tinha
Um brinco de diamante
Ela tem, mas é latinha
Que latinha mais brilhante!
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Lavadeiras
Já que uma mão a outra lava,
Quem vai lavar o mamão?
“ Eu não sei”, ela falava
“ Ora, vá lamber sabão”.
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No Éden
Eva e Adão namoravam
Carinho, beijo na mão
Os bichos atormentavam:
“Lá vai Eva e eu vi Adão”.
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terça-feira, 24 de maio de 2011
panis et circensis
( com Aléxia Alvim)
POEMETOS TRAGICÔMICOS
I - Malabarista
o gringo
degringolou:
restou o gigolô.
- * - * - * - *
II - Bailarina
sem tutu,
apelou pra vodu:
golpe do Baú.
- * - * - * - *
III - Homem bala
Cômica química, vide bula:
por amor à Bela,
tornou-se tatu bola.
* - * - * - *
IV - Domadora
Domada pelo homem fera,
gestou, engordou
agora é es_fera.
- * - * - * - *
V - Trapezista
na corda bamba,
quedou-se à coca
de Cochabamba.
- * - * - * - *
VI - Mágico
pagou mico,
aposentou o coelho:
virou Cartola.
- * - * - * - *
VII - Palhaço
perdeu o pé,
virou a pá,
viciou no pó.
* - * - * - *
um doce pra quem responder
O homem perfeito e a mulher perfeita se conheceram. Logo formaram um casal mais que perfeito.
Um dia, o casal encontrou Papai Noel que pediu ajuda para distribuir os presentes de Natal para as crianças do mundo.
Por serem perfeitos, os dois aceitaram ajudar mais que depressa.
Acontece que o homem perfeito dirigia trenós muito mal, o que ocasionou um acidente feio com os três.
Pergunta-se: dos três - homem perfeito, mulher perfeita e Papai Noel -, quem sobreviveu?
Resposta: a mulher perfeita
( homem perfeito e Papai Noel não existem)
.
Um dia, o casal encontrou Papai Noel que pediu ajuda para distribuir os presentes de Natal para as crianças do mundo.
Por serem perfeitos, os dois aceitaram ajudar mais que depressa.
Acontece que o homem perfeito dirigia trenós muito mal, o que ocasionou um acidente feio com os três.
Pergunta-se: dos três - homem perfeito, mulher perfeita e Papai Noel -, quem sobreviveu?
Resposta: a mulher perfeita
( homem perfeito e Papai Noel não existem)
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mundão véio sem portera
Coisa que não acaba no mundo é gente besta
e pau seco. Etc, etc, etc
Maior que o infinito é a encomenda.”
Manoel de Barros
coisa que não acaba no mundo
é gente besta, metida a prosa
é cacto travestido de rosa
é mente rasa, que posa de funda
é vivo de alma moribunda
coisa que não acaba no mundo
é coisa que acaba com o mundo
maior que o infinito, poeta
só o amor
maior que a encomenda
.
sábado, 21 de maio de 2011
sexta-feira, 20 de maio de 2011
estar de lua
( por Márcio Ares da Silva )
Vai que a noite não foi boa
E o dia tarde a caminho
Nós somos um quarto à toa
Que ainda resta, meio à míngua
Querendo um quarto crescente
Querendo cheio de novo
O clarão que fora lindo
O meu olho no seu olho
Minha língua em sua língua
Somos um quarto de hora
Somos um quarto de rua
Somos um quato da história
Escrito com a noite nua
Somos o dito e o não dito
O que eu penso e o que tu pensas
Somos um quarto suspenso
De lua, amor infinito
Vai que a noite não foi boa
E o dia tarde a caminho
Nós somos um quarto à toa
Que ainda resta, meio à míngua
Querendo um quarto crescente
Querendo cheio de novo
O clarão que fora lindo
O meu olho no seu olho
Minha língua em sua língua
Somos um quarto de hora
Somos um quarto de rua
Somos um quato da história
Escrito com a noite nua
Somos o dito e o não dito
O que eu penso e o que tu pensas
Somos um quarto suspenso
De lua, amor infinito
Márcio Ares, maio/2011
mil e uma utilidades
quando você partiu
putaquipariu
meu mundinho perfeito ruiu
tomou doril o meu bombril
com o tempo aprendi
a sintonizar sinal de tv confuso
desapertar parafuso
tirar ferrugem
desobstruir canaleta
substituir fusivel de baixa amperagem
limpar aro de bicicleta
.
.
você precisa me ver agora :
sei até aplicar ladrilho
hoje procuro pro amanhã
espírito jovem, destemido
que me traga muito brilho
um tipo assim... assolan
quinta-feira, 19 de maio de 2011
Questão de a(l)titude
Minha filha contou o problema: nos preparativos para a quadrilha junina na escola, a ordem era que os meninos convidassem as colegas para formarem pares. E ela estava certa que ninguém a convidaria. Tinha lá suas razões: aos 13 anos, com 1,79m, é a mais alta da escola. Inteira.
Sei bem como é isso, de certas lembranças nunca nos livramos. Aos 13 anos, eu já media os atuais 1,70 m. Na escola, era a porta-bandeira efetiva dos desfiles de 7 de setembro. Em casa, Olívia Palito. Para a turma, Vara-Pau e nas festas, o chá-de-cadeira era inevitável. Sem falar das piadinhas infames. É bom esclarecer que ter 1,70 m naquela época era muito diferente de hoje, tempo de gigantes. E ter 1,70 m numa família de pessoas baixas incluía regras absurdas como evitar praticar esportes para não estimular o crescimento e dar tratos à bola para se destacar. Sem muitas opções, virei CDF, a versão antiga dos nerd.
Tinha a questão dos pés. Comprar sapatos 38 era tarefa para desbravador. Virei Olívia-Palito-Pé-de-Anjo. Tinha a questão da postura. Mulher alta, quando encurva-se para adequar à altura dos outros mortais, fica corcunda. Andando de cabeça baixa, é falsa humilde. Com coluna e cabeça eretas, é metida. Eu era do tipo empinado: virei Olívia-Palito-Pé-de-Anjo-Vara-Pau-CDF-Metida.
Ao entrar numa festa, todos me observavam – um tormento para a adolescente tímida. Sem convite para dançar, eu ficava sentada para não dar na vista. Só que garota alta e tímida, quando fica encalhada, todo mundo percebe.
Adolescente, cheguei a desejar ardentemente a senitude: na velhice, pela reacomodação das vértebras, diminui-se até 2 cm. Mais tarde, superada a crise, tive uma juventude normal: encorpei, dancei, namorei, casei... Suspeito que a indústria tem acrescido hormônio de crescimento e fermento no leite, danoninho, chocolates e biscoitos há décadas. Êta juventude alta! Todas em casa são mais altas que eu. A diferença é que não ganharam apelidos, praticam esportes e compram calçados número 40 sem dificuldade.
Preocupada com o destino solitário da menina na dança junina, aconselhei-me com as bases. As filhas mais velhas, experientes, acharam que estávamos fazendo tempestade em copo dágua:
- É só escolher o menino com quem você quer dançar e convidá-lo, ora!
Foi assim que a menina conseguiu seu par. Salva pela independência e auto-confiança femininas do século XXI.
Respiro, aliviada. Posso enfim me dedicar à minha mais recente preocupação: evitar o crescimento em largura. Nada que uma dieta equilibrada, corrida cinco vezes por semana e um bom transplante de cérebro para dar cabo de tanta insegurança não consigam resolver.
.
quarta-feira, 18 de maio de 2011
O que se é
( por Márcio Ares da Silva *)
Tanto tempo de vida vivi por viver.
Nada criei, em nada cri, nada inventei que valesse a pena.
E, diferente de antes, muito antes, pouco fui feliz.
Tudo era inútil e pequeno. Urgente era partir.
Eu sou o homem que parte, para a pior parte,
e o menino que fica, face a face, com o melhor que fica.
As metades que me atravessam
são essa metade que resta e essa metade que insiste,
o menino que parte, o homem que fica.
Márcio Ares maio/2011
Márcio Ares é mineiro, filósofo, licenciado em letras, compositor, poeta, e policial militar.
terça-feira, 17 de maio de 2011
penso, logo abuso
abuso
"quem faz da palavra
gato e sapato
não vai além dos substantivos"
Fouad Talal
toda palavra
é que nem parafuso:
tem as de uso contuso
aquelas multiuso
umas de uso inconcluso
outras já em desuso
bom é quando se cruza
a barreira conceitual
pra conduzir a rima intrusa
rumo ao transcendental
tal qual parafuso e rosca
Talal, nenhuma intenção é musa
pra palavra tosca
.
segunda-feira, 16 de maio de 2011
lero lero
tenho muito que não quero
não tenho tudo que quero
não quero cabelos brancos
nem rugas em volta dos olhos
quero olhares francos
quero voltar a Abrolhos
prefiro a rosa dos ventos
não quero a Rosa de Hiroshima
não quero lugar barulhento
quero nadar rio acima
dispenso amor ciumento
não quero vida de artista
quero ser do mundo turista
fazer da paz meu alento
quero revisitar Paris
reler Machado de Assis
céu, inferno, purgatório
esquecer o passado inglório
quero comer um bom bocado
quero pra sempre ser magra
em Lisboa viver meu fado
em Lisboa viver meu fado
nunca pegar ninguém no flagra
quero aprender sapateado
quero aprender sapateado
balançar na Torre de Pisa
quero quero tanta coisa
mas chega de lero lero
sei lá se um dia esmoreço
e quedo de asa caída
no cômputo geral da vida
tenho menos do que quero
muito mais do que mereço
* diálogo com o poema "Belo belo" de Manuel Bandeira
domingo, 15 de maio de 2011
sábado, 14 de maio de 2011
sexta-feira, 13 de maio de 2011
sétimo céu
sabe o que eu mais queria
ter pra quem dizer te amo
ter a quem chamar, ô mania
de amor, meu doce, querido,
talvez até um coração partido
.
talvez até um coração partido
.
seria gostoso demais
ter pra beijar uma boca
t(r)ocar cheiros, travessa
agradar meu amor feito louca
virar de ponta cabeça
que bobagem é desgraça pouca
enquanto espero esse dia
isso ninguém me tira
isso ninguém me tira
invento mil fantasias
nesse sonho borralheiro
até finjo ver poesia
até finjo ver poesia
no blindex do banheiro
.
triversado
( por Márcio Ares da Silva)
PACIÊNCIA FELINA
sete vidas eu daria a ti
para que as tristezas fossem cumpridas
e a alegria fosse infinita
sete vidas eu existiria assim
querendo te ver sorrir
*
TEMPO ANTIGO EM PROCISSÃO
escrevo maio e minhã mãe maria
oferta à primavera
o pastor que eu era
na coroação da virgem
*
ALVIM MARIA
de novo escrevo para maio
para uma outra maria
essa, colega de farda,
amiga um tanto tardia
feliz que reza à feliz primavera
mais feliz se faria
*
Márcio Ares da Silva maio/2011
http://www.marcioares.blogspot.com/
http://www.marcioares.blogspot.com/
segunda-feira, 9 de maio de 2011
domingo, 8 de maio de 2011
Para acontecer poeta
( por Márcio Ares da Silva)
Se esse verso fácil é poesia, eu sou - reconheço e confesso - uma fraude.
E nenhuma graça me justifica.
Quero a palavra que engasga e faz doer a alma, nublar a minha paz por
dias infinitos.
Quero a incerta ordem da página,
o risco indormido, além da madrugada,
o inquieto imaginário de fantasmas.
e, por último, justo e exato, quero que o verso não seja fácil
porque de escuro se veste a claridade
dizendo rosa o espinho disfarce.
À força da mão meu coração que se dobre
e sangre arco-íris no verso encantado.
E enquanto calado eu fique, seja este o tempo que me baste.
Tudo o mais é vontade por dizer, é mar sem barco ou estrelas, a vida
sem crer, ânsia de se libertar.
Seja meu o instante sem saber. Doa a mim a palavra por inventar.
Não quero fácil existir, simplesmente,
e dizer que existo, igual a tudo, para toda gente,
sem essa coisa inominável a que se chama, através dos tempos,
talvez poesia, talvez amor, talvez demência.
Que eu, filho do mais doído mistério,
traga à luz as palavras primeiras, únicas, estranhas ou belas
a inaugurar esse parto dos homens, grávido que estou de longes, ondes e quandos
que ainda não se fizeram.
Eu vou parir Deus com o meu verso.
E vou parir o demônio.
E vou engravidar os nomes que se puserem no caminho desse ofício, ou
dessa coragem,
para que a melodia dos nomes desperte o grito alado das palavras.
Para que eu nunca, jamais, em tempo algum me contente
com o instante fácil do verso
e não me confesse uma fraude.
Márcio Ares da Silva maio/2011
http://www.marcioares.blogspot.com/
"O poeta é um mundo encerrado num homem" Victor Hugo
Se esse verso fácil é poesia, eu sou - reconheço e confesso - uma fraude.
E nenhuma graça me justifica.
Quero a palavra que engasga e faz doer a alma, nublar a minha paz por
dias infinitos.
Quero a incerta ordem da página,
o risco indormido, além da madrugada,
o inquieto imaginário de fantasmas.
e, por último, justo e exato, quero que o verso não seja fácil
porque de escuro se veste a claridade
dizendo rosa o espinho disfarce.
À força da mão meu coração que se dobre
e sangre arco-íris no verso encantado.
E enquanto calado eu fique, seja este o tempo que me baste.
Tudo o mais é vontade por dizer, é mar sem barco ou estrelas, a vida
sem crer, ânsia de se libertar.
Seja meu o instante sem saber. Doa a mim a palavra por inventar.
Não quero fácil existir, simplesmente,
e dizer que existo, igual a tudo, para toda gente,
sem essa coisa inominável a que se chama, através dos tempos,
talvez poesia, talvez amor, talvez demência.
Que eu, filho do mais doído mistério,
traga à luz as palavras primeiras, únicas, estranhas ou belas
a inaugurar esse parto dos homens, grávido que estou de longes, ondes e quandos
que ainda não se fizeram.
Eu vou parir Deus com o meu verso.
E vou parir o demônio.
E vou engravidar os nomes que se puserem no caminho desse ofício, ou
dessa coragem,
para que a melodia dos nomes desperte o grito alado das palavras.
Para que eu nunca, jamais, em tempo algum me contente
com o instante fácil do verso
e não me confesse uma fraude.
Márcio Ares da Silva maio/2011
http://www.marcioares.blogspot.com/
sábado, 7 de maio de 2011
sexta-feira, 6 de maio de 2011
prato feito
( rondel )
Eu sou uma pessoa comum
Carne, ossos, coração, memória
Abafo prantos um a um
Ao vapor da vida ilusória.
Defumo versos em jejum
Esfumo a dor, contraditória
Eu sou uma pessoa comum
Carne, ossos, coração, memória.
Graças a Atala, Bono, Oxum
Saboreio, al dente, a vitória
Insucessos, flambo-os ao rum
Dou minha mão à palmatória:
Eu sou uma pessoa comum.
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quinta-feira, 5 de maio de 2011
Segura, peão
Sexta-feira só falavam do rei e da rainha.
Domingo beatificaram o bispo.
Depois deram xeque-mate em quem derrubou as duas torres.
... E eu aqui de peão, trabalhando que nem um cavalo..."
( recebi por e-mail esse resumão da semana; autoria desconhecida)
terça-feira, 3 de maio de 2011
Cordel da mulher zangada
Quando me bate uma zanga
abro o peito, solto a franga
falo pelos cotovelos
mostro a garra, eriço os pelos
não é que eu seja aloprada:
pra brigar eu dou boiada
Quando fico p da vida
armo o que até Deus duvida
faço bico, ofendo, emburro
em ponta de faca esmurro
eu não fico só de mal
mato a cobra e mostro o pau
Dizem uns que sou histérica
que conter-me é lida homérica
outros que sou barraqueira
é intriga da oposição:
desgraça pouca é besteira
sou mulher de opinião
Muita calma nessa hora
senão a fera apavora
dou chilique, faniquito
arrebento e arrebito
viro bicho, incrível Hulk
da finesse, adeus o look
Não mexa comigo, moço
que eu não engulo caroço
no facebook e orkut
me vingo, no saco um chute
posso não ter muito músculo
mas sou mulHer, agá maiúsculo
este cordel faz parte do exercício coletivo do RL "a mulher zangada"
não é autobiográfico: até que sou bem calminha
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segunda-feira, 2 de maio de 2011
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