quinta-feira, 31 de março de 2011

A outra





Se Clinton traiu Hillary ( mas não foi sexo!) e o governador de Nova York foi desleal a seus princípios moralistas, certamente chegaria a vez dEla. As evidências, exuberantes, multiplicaram-se após a estada na praia, só as filhas e Ela. Percebeu algo errado no olhar reticente do marido - enquanto mulheres são pontuais nos momentos de crise, homens  enchem-se de reticências. O alarme interno deveria ter disparado quando Ela encontrou pistas na cama de casal. Mas assim são as mulheres: portadoras de sexto sentido acutíssimo, ainda que os sinais saltem aos olhos, elas preferem fazer vista grossa.


Perguntou, como quem não quer nada, quem dormira na cama deles durante Sua ausência. Com olhar inocente, ele apontou para Luna, a boxer da família. Ela e a outra se estranhavam há muito, numa competição tácita pelo papel de prima dona. Ela nada tinha contra a boxer, exceto a devoção exagerada a Seu marido e a indisfarçável implicância com Ela. Pular em cima do Seu uniforme branco com as patas sujas; destruir diariamente o jornal jogado na garagem; rosnar quando A via abraçada ao marido; fugir para a rua quando Ela abria o portão da garagem eram rotina nos três anos de coabitação. Ela sempre levou na esportiva. Assim são as mulheres: aprenderam com Oscar Wilde ( e suas avós) que a vida é importante demais para ser levada a ferro, fogo e ressentimentos.


Luna, a outra, é irascível e enfrenta até o companheiro. Quando os cães brigam e o marido percebe-A por perto, não perde a chance de consolar Zack: “Liga não, amigão. Elas são todas iguais.” Ela poderia se irar por ser comparada com uma cachorra, mas mulheres têm natureza pacífica e obstinada em fazer do lar uma faixa de Gaza.

Um dia Ela vacilou: num momento de descontrole, queixou-se de Luna ao marido. Ele ouviu pacientemente a ladainha e, previsivelmente, tomou as dores da cachorra: “Se você me desse metade da atenção que Luna me dá, eu seria um homem realizado” ( para algumas mulheres, só lobotomia resolve!).

Ela calou, escandalizada. Convive-se vinte anos com alguém, faz-se das tripas coração para ser esteio emocional; equilibra-se na corda bamba para conciliar os múltiplos papéis de mulher, mãe, profissional, esposa e de repente descobre-se que tudo que o outro desejava era uma cadela que lhe lambesse o rosto e saltitasse ao fim do dia.

Enfiou o rabo entre as pernas: em alguma coisa muito importante Ela falhara para ser comparada desfavoravelmente a uma boxer briguenta. Assim são as mulheres: andam de mãos dadas com a culpa, em dívida permanente com o Universo. Combativa, Ela tenta se acalmar: tem seus méritos, ora bolas! Se a outra não fala demais, Ela não solta pelo, não rosna e nem late. A outra aceita usar coleira, mas ninguém precisa comprar ração e trocar a água dEla. Ela não dá aquela lambida afogada em saliva, mas faz várias outras coisas que, garante, a outra não faz.

Ela esmerou na atenção, caprichou no bom trato, rosnou, abanou rabinho. Dois meses depois perguntou, meio assim na brincadeira: “E aí? Superei a Luna?” O silêncio pesado foi resposta eloquente e doeu fundo, fundo... uma verdadeira cachorrada. Assim são as mulheres: perigosamente vingativas - quando as alternativas de harmonia se esgotam, que fique claro.

Dizem que a separação, litigiosa, abriu precedência e deu trabalho pra cachorro. E que ele hoje sente muita falta dEla... especialmente nos dias de vacina e tosa.


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( crônica antiga, escrita em fevereiro de 2008 - lembrei-me dela ontem ao falar com meu amigo Roberto Lima, jornalista, escritor, editor do blog Primeira Pessoa, que estava todo jururu com a morte de Jade, sua cachorra super amada, apesar do difícil convívio diário.
Cachorro é como grande amor, Roberto: só não sofre por ele e sente falta quem nunca teve ) 

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terça-feira, 29 de março de 2011

mulheres traídas



a distraída atrai quem a trai
a traíra subtrai quem distrai
a retraída não atrai
 não distrai,  não trai
 muito menos descontrai
( e não está nem aí )
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segunda-feira, 28 de março de 2011

Bárbara, a última






Romântica e utópica, Bárbara era um fenômeno trágico-cômico, de ímpetos cíclicos, cáusticos e histéricos. Os músculos, flácidos.
A vida passara qual relâmpago, sem Príncipe para preencher seus côncavos. Haja ginástica!
Átila, o personal trainer, era único: rústico, másculo, carnívoro.
A jovem máquina tântrica ressuscitou em Bárbara colágeno e espírito.
Mágica clássica. Melhor que plástica.


( 5o. e último miniconto da série Mulheres tônicas, de março/2008)

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domingo, 27 de março de 2011

a quem interessar possa



saia já da carapaça
desvista a carapuça
cara, peça ajuda
o tempo passa...
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vampira de Pirapora




repara na tapera
espia o caipira
espera o caipora
respira o ar puro
suspira pelos poros
e tem o tempero
preparo o papiro:
longe de Pirapora
Gê, a vida piora



( Pra Rogério Chagas, amigo querido que me apresentou ao animado Carnaval de sua cidade quase trinta anos atrás ).

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sábado, 26 de março de 2011

À CARBONARA



Pimenta nos tetos dos outros é afresco.
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Olha o passarinho





Ele chega de mansinho e me observa firmemente, como se quisesse gravar na retina meu rosto.
Se contenta com as migalhas do meu amor e me deixa nas nuvens, com cara de quem viu passarinho verde.
Retribuo o olhar e me encanto com o semblante doce e o passarinho de fora.

Ah meu bem, te vi.

Sei não, mas um passarinho me contou que esse canarinho que me canta todas as manhãs, no parapeito da minha janela, está querendo me namorar.
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Sedução


CEDO OU TARDE CEDO

Se der pra me sedar
acho que dá para eu ceder
e quiçá até rasgar seda
dá procê?
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sexta-feira, 25 de março de 2011

Trava línguas II



Cura atrevida

professora, seja sincera
por que será que só
você cura secura por coceira
com escara seca de saracura?

eu curo secura por coceira
com aparas de escara seca e clara
porque a cera escura é cara,
não sara e muito menos cura
- sacou, criatura?

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quinta-feira, 24 de março de 2011

Milhares de preliminares



Olhares regulares
para mulheres irregulares
desfazem lares
alheios
alhures
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A vós, do povo e a voz de Deus



pra quem anda de olho
em alheios campos de trigo
vale um aviso antigo:
pode tirar o olho
e o cavalo da chuva

plantação alheia é joio
joia é a coroa da viúva
( Deus não dá asas a jiboia
e pra aturar instinto de Shiva
só com muita Brahma )
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terça-feira, 22 de março de 2011

TSUNAMI



(mar_e_moto)


quando  Deus decide 
tirar uma onda
é sinal que o mar
não está pra peixe

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Como é que pode?




isso ainda vai dar bode
quando meu sorriso e seu bigode
se encontram,  nasce um ósculo 
de línguas tão embaraçadas
que até embaçam-me os óculos

deve ser por isso que dizem
que com mulher de bigode
nem o diabo pode...
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sábado, 19 de março de 2011

Preto no branco



a obtusa musa
usa e abusa
do balançar
dos cabelos de medusa

com  olhos ela atrai
com  boca ela recusa
cruza dedos
se lambuza
.
e torce a blusa
na espera confusa
que seu cérebro
pegue no tranco
.
( só se for
 no solavanco :
 seu pensar
 ta_ manco)

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sexta-feira, 18 de março de 2011

Se correr o bicho pega, se ficar o bicho home




O primeiro era um galinha. Como ela dormia cedo, com as galinhas, ele aproveitava para ciscar fora do ninho - sabe como é, a galinha do vizinho é sempre mais gorda e de grão em grão a galinha enche o papo. Um dia o caldo entornou. Voou pena pra todo lado.

Quem não tem cão, caça com gato. Assim era o segundo, lindo e infiel. Dizem que à noite os gatos são parvos - deve ser por isso que ele nunca soube o pulo do gato.  Mas soube fazer dela gato e sapato. Gata escaldada, cansada de comer gato por lebre, um dia ela atirou o pau no gato. Santa dispensada, Mulher Gato.

Ela já estava matando cachorro a grito, num mato sem cachorro, quando finalmente encontrou o terceiro. Devotado, companheiro, previsível e estável como os cães, com uma carinha fofa e desolada de cachorro sem dono.  Ela domou o próprio gênio de cão para aproveitar melhor as delícias do cachorro quente. Felizes, foram morar na praia, isolados da civilização.

Viver neste mundo cão é, definitivamente, briga pra cachorro grande.

The end
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quinta-feira, 17 de março de 2011

De amores e amoras



( tem dia que sim, tem dia que não)


Amor é bom para o coração. Chá de folha de amora também.
Amor não cabe no bolso. Amora até cabe, mas mancha.
Um dá água na boca. O outro deságua.
Ela atrai passarinho, ele abstrai
E há dias de cultivar amores e dias de colher amoras.

Em dia de amoras, a gente fica carregadinho no pé, na expectativa, pronto pra coisas grandes e pequeninas.
Nos dias de amores, a gente quer colher fruta no pé e comer ali mesmo, agachado na sombra da árvore, cansado de ir e vir na busca das coisas que aquietam o espírito.

Nos dias do amor, a gente deixa o espírito rubro de sangue.
Nos dias de amora a gente amarela, e desce escuro, azedinho.

Nos dias de amoras, a gente lambe os dedos, boca e dentes rubros.
Nos dias de amores, alegria lambe o olhar e o mundo é que parece colorido.

Em dias de amora, a gente abunda, silvestre, em terrenos férteis ou baldios, sem carências.
Para florar e frutificar em dias de amor, carece terreno fértil, muita rega, arte e ternura de mãos jardineiras.


Há os dias de amores, masculinos, idealizadores, confiantes, decisivos.
Dias de amoras são femininos, receptivos, espontâneos, flexíveis.

O segredo é se abrir aos sentimentos e (tentar) seguir o destino...
Porque tem dia que sim. E tem dia que não.

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terça-feira, 15 de março de 2011

Papo de artista



O homem decepcionou quando conheceu a escritora.
A mulher na sua frente não chegava aos pés daquela cujas letras faziam-no sonhar, inundando seu coração de meiguice, ironia, sensibilidade...
A escritora tristemente achou graça.


Ele devia ter parco contato com as artes, coitado.
O artista molha os pincéis na alma  para pintar sua própria natureza.
Nas searas quentes da arte o artista encontra terreno fértil para germinar sementes que, de outra forma, o fariam vulnerável na fria realidade cotidiana.


É comum  usar máscaras na vida.
Nunca na arte.


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segunda-feira, 14 de março de 2011

Dançando conforme a música



Logo que aposentou, decidiu fazer aulas de dança de salão.
O marido não se interessou em acompanhá-la.
Aos poucos ela e o professor apaixonaram-se perdidamente.
Nesta quem dançou foi o marido, mas o casamento já estava dançado muito antes.

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sábado, 12 de março de 2011

Caso




Caso você surja
 toda suja
rogando perdão,
 como um pedinte
dou-me já
o conselho seguinte:
so_corra, 
da dita cuja fuja

( se não for pegadinha,
é assalto
ou acinte)

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sexta-feira, 11 de março de 2011

O céu por testemunha





Quando a polícia chegou ainda encontrou o corpo quente.
Ela chorava, desconsolada, com a arma ainda na mão.
Ela só queria que ele fosse atrás dos sonhos. Dos dela.

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quinta-feira, 10 de março de 2011

Dito e feito


Perdoe-me pelo mau jeito
de gabar-me não sou afeito
nem sou mulher de trejeito
mas já tirando proveito
dos meus dotes por direito
afirmo: eu tenho peito

 falo de peito aberto, contrafeito:
a cabeça é de ferro, não tem jeito 
 a perna é de pau, eu aceito
mas meu peito é de aço, sujeito
desaforos, mato no peito
amigo do peito eu respeito

sou muito fêmea no leito
não futrico em parapeito
já sofri de amores, dor no peito
mas se de injustiça eu suspeito
abro o peito liquefeito
e faço do feito um desfeito

( se tenho dois peitos - perfeito
não ter culhões é meu defeito)


quarta-feira, 9 de março de 2011

Cajuína


"Existirmos - a que será que se destina
(...) apenas a matéria vida era tão fina"
Caetano Veloso



 labuta de peregrino
não dá folga nem termina
na fuga vã do destino
mal a gente dobra a esquina
encontra o (mal)dito de novo
ferino, cabotino, ladino

ô deus, que (en)sina

Dose dupla




lentamente
teu canto
acalenta
minha mente lenta

*   *   *

No céu a lua menina
majestosa e silente
me_nina envolvente
sob o olhar da tênue neblina

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segunda-feira, 7 de março de 2011

bola oito



eis meu jogo favorito:
rolar macia ao seu lado,
e ser lançada ao infinito
tal qual um oito deitado

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Trava língua


                                                                     será que o sabiá
sabido sabia
que sua ressabiada sobrinha
já sabia sambar e assombrar?

sempre que meu anjo
propõe-me novo arranjo
sofro um desarranjo
nem parece que de mar_manjo.
amor kamicaze
é uma atração fatal
ou quase
tô lascada
cansada da frase polida
da rima emp(r)oada
dessa vida fudida
 talvez por falta de peito
ou por puro preconceito
ele optou por  am(arr)á-la
no pretérito imperfeito
.

preleção




tem mais préstimo
a prática de um princípio
que o prestígio de um príncipe

(  príncipe a princípio
 só se aprochega
por empréstimo )

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domingo, 6 de março de 2011

Palavras cruzadas



Fosse eu uma palavra
seria proparoxítona
grande, redonda, fêmea
de múltiplas sílabas
dessas que enchem a página
romântica e clássica como Penélope
cáustica e mítica como Eurídice
recurso último, trajeto cálido

fosse você uma palavra
seria homônimo
dúbio, com diferentes significações
decente, mas com o amor por mim descente
à espia do exato instante de me fazer expiar
atando laços em meu corpo lasso
presando quem tanto te preza

Fôssemos nós dois juntos uma palavra
seríamos um monossílabo
rápido, tônico e definitivo
eu, tu, nós
 oi, ei
 sim, não, mais
hein, já?
fim.
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sábado, 5 de março de 2011

Ao meu anjo



não posso mudar você
nem te mostrar outro mu(n)do
contudo,
 se meu gesto te deixou mudo
desnudo meu desgosto
emudeço na partida
e torço
 pra que bem disposto
você se mude pra mim
em outra vida

pois é, bem feito
quem disse que
anjo não tem de(s)feitos?

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terça-feira, 1 de março de 2011

Águas de cabeceira




ÁGUAS DE CABECEIRA
Márcio Ares *

Era Maria, a mãe. Aparecida. Da filha, um nome que não se lembra, por certo Maria.
O casebre avizinhava um pequeno rio, quase sem nome, esquecido de mundo, quase de gente.
Talvez se chamasse cana brava, talvez Santa Maria.
Foram ao vizinho, do outro lado, ali não muito longe, depois do corguinho.
Carecia limpar o arroz no pilão emprestado que era, pobre a vida.
Com a força do braço, pilão, peneira, socador e destreza, no afastado de possibilidades, cumpria-se o difícil emaranhado da vida.
Terminada a tarefa, voltavam uma hora qualquer, de certo não de manhã.
Das três crianças, uma segura no braço; uma caminhando seguro; a outra segura de dentro da barriga.
A peneira-de-abano cobria o arroz na bacia.
Nem tinha mesmo chovido, mas o dia vinha teimoso de chuvisco.

Na beira d'água, depois da curva do rio, pousou as crianças. A maiorzinha mantinha a vigília.
Atravessou primeiro o arroz e as vasilhas, com os cuidados que aquele tempo exigia.
Voltou para buscar o casalzinho de meninos.
Agarrada às mãos da mãe, a maiorzinha acompanhava-lhe os passos para a travessia.
O menor de todos, seguia nos braços, agarrado ao pescoço materno, esganchado sobre a curva da
barriga, onde o futuro, de meia dúzia de meses, parece que dormia.
No meio do vau, a pouca água virou grande rio. Uma cabeçada veio de
repente. Tanta água era sem aviso. A mãe, tomada ao pouco saber que
lhe cabia, rodou um certo tanto, apertando com força os filhos.

Agarrou, no desespero, um pedaço de barranco, galha, ramo, o que se via e não se via.
A vida ficou em suspenso, num instante quase não percebido.
Na outra mão a mão vazia. A maiorzinha escapulira.
Melhor inventar, nessa história, um certo alívio. A mãe, arrastada pelas águas, e duas crianças ainda existiam.
Estavam ali, de algum modo, vivas. Arrastadas pelas águas, jogadas, meio que por milagre, na
improvável margem. Perdida a cria, sabia agora a dor mais doída.
Da garganta saíra, tímido, o primeiro grito.
A distância, pouca, donde se dando um grito se ouvia, trouxe, não se sabe com que força e voz, o vizinho. Com ele, o intento de alguma valia, de algum socorro possível que, no fim sem fim da boa humanidade, acabou que de nada serviu.

Sobrara José, que dos braços e da sorte se valera, ou quem sabe de algum dó divino.
E ficou Perpétua o nome que se daria à menina ainda não nascida.
De mãe que nunca tivera muito, só mais ou menos se sabia algum conforto, qualquer pequena alegria. Entendia só mesmo do simples da vida.
Ficou, parece, um tanto mais incerta, meio que sem norte, um pouco mais sofrida.

Ao longo do seguinte dia, um pescador, distante do acontecido, achou, primeiro os cabelos compridos à beira do rio. A meninazinha, tão bonita, um corpo sem vida. Soubera do povo reunido, procurando pela
noite, pelo resto do dia, a menina entregue às águas, na culpada lembrança das mãos da mãe que sofria o desgosto, inseguro, da vida.

Era Maria, a mãe. Aparecida. Da filha, um nome que não se lembra, por certo Maria.

http://www.marcioares.blogspot.com/

Márcio Ares é mineiro, filósofo, compositor, poeta, fotógrafo, e policial militar nas horas vagas. Ganhou vários prêmios de literatura por causa do passarinho que carrega no peito e que faz ele trinar coisas líricas e profundas toda vez que abre o bico. Adora Maria Betânia, já viajou praticamente o mundo todo e assistiu ao espetáculo "Mulheres de Holanda" 34 vezes. Tem uma dificuldade antológica para assuntos internáuticos, mas é um desses amigos com quem se pode contar a qualquer tempo. Tem dias que só ele pra desenhar o riso no meu rosto.
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quadrinhas do amor imperfeito




Se isso é amor não sei
só sei que te quero bem
que na minha cama és rei
no meu coração também



Coisas que temo no mundo:
rato, mentira e trovão
mas eu saro num segundo
se segurar minha mão



Quem diria que um dia
se esquecerias de mim
de mim, que era sua mania
logo eu, que era seu jardim


Não é que eu seja calada
é que falas por nós dois
se hoje a boca está fechada
espere pra ver depois


Versos loucos de poeta
cantam desejos de amor
é fantasia secreta
o seu destino, leitor

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