domingo, 31 de outubro de 2010

Curtas de Cacaso, o anjo marginal





Falando sério
Outro amor? Não caio mais.

.
indefinição
pois assim é a poesia
esta chama tão distante
mas tão perto de estar fria

.
happy end
o meu amor e eu
nascemos um para o outro
agora só falta quem nos apresente

.
estilos trocados
meu futuro amor passeia - literalmente - nos píncaros daquela nuvem.
Mas na hora de levar o tombo adivinha quem cai.

.
lar, doce lar
minha pátria é minha infância
por isso vivo no exílio

.
Na corda bamba
Poesia,
Eu não te escrevo
Eu te
Vivo

E viva nós!

.
Problemas de nomenclatura
Rememoro com resignado e fervoroso amor
A primeira namorada.
Mas o nome dela dançou

.

ah!
Ah se pelo menos o pensamento não sangrasse!
Ah se pelo menos o coração não tivesse
[memória!
Como seria menos linda e mais suave
minha história

.
Estilos de época
Havia
os irmãos Concretos
H. e A. consangüíneos
e por afinidade D. P.,
um trio bem informado:
dado é a palavra dado
E foi assim que a poesia
deu lugar à tautologia
(e ao elogio à coisa dada)
em sutil lance de dados:
se o triângulo é concreto
já sabemos: tem 3 lados.


.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

La Boca

imagem da Pizza Sur (BH), do Gustavo Román, fanático por Boca Juniors e Maradona




A boca me abocanhava
e dizia que eu era
 sua bo(ne)quinha de luxo
vive agora numa biboca
na boca do lixo

.
a boca me desbocava
- bendita seja, ma(ra)dona -
hoje sai rebocada
das bocas de fumo

.
a boca citava bocage
- ai, aquela boca de lobo -
antes de ir-se
desembocou em mim
o boca juniors

.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Cordel da mulher zangada



Quando me bate uma zanga
abro o peito, solto a franga
falo pelos cotovelos
mostro a garra, eriço os pelos
não é que eu seja aloprada:
pra brigar eu dou boiada

Quando fico p da vida
armo o que até Deus duvida
faço bico, ofendo, emburro
em ponta de faca esmurro
eu não fico só de mal
mato a cobra e mostro o pau

Dizem uns que sou histérica
que conter-me é lida homérica
outros que sou barraqueira
é intriga da oposição:
desgraça pouca é besteira
sou mulher de opinião

Muita calma nessa hora
senão a fera apavora
dou chilique, faniquito
arrebento e arrebito
viro bicho, incrível Hulk
da finesse, adeus o look

Não mexa comigo, moço
que eu não engulo caroço
no facebook e orkut
me vingo, no saco um chute
posso não ter muito músculo
mas sou mulHer, agá maiúsculo.



Este texto faz parte do exercício criativo - Mulher zangada

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sábado, 23 de outubro de 2010

A quoi ça sert l'amour?*





( mini máximas desiludidas)


I - as vivências de amor
daquele sujeito
dariam dois versos
quando muito, poemeto

.

II - pra tudo é preciso limite:
beijo demais dá queilite
engolir sapo, gastrite
sexo sem freio, uretrite
paixão demais é dinamite
amor pra sempre, só  Afrodite

.

III - Prometo que vou amá-la
como Jung amou a  mandala:
certo dia bateu o tédio
e ele a deixou...
 que remédio


.

 
V - quando penso
 "agora sai"
o amor esvai
e o hai
                   k
                        a
.                            i



.


* Pra que serve o amor? , título de uma canção de Edith Piaf.

 No link, numa animação adorável de Louis Clichy, dueto poderoso da canção por Edith Piaf e Theo Sarapo 



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quinta-feira, 21 de outubro de 2010

sufoco

criação e produção: Felipe Passantino


nasodrama

se acaso um dia
em hora sombria
o ar me faltar
aviso desde já:
é o ocaso

( bem no prazo ) 

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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Trama

orvalho em teia de aranha ( autoria da foto desconhecida)


"amor, então,
também acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima"
Paulo Leminski



amor sem rega
enruga
roto, arruina:
primeiro dá raiva,
amarga,
gente sai da rota,
rema contra amar é

aí um dia gente
toma prumo
e proclama 
que drama
virou insumo
de novo rumo
pra lida

arremato:
na poesia da vida
toda lágrima
é rima
sem brida

.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Leminski: o poeta que uniu ocidente e oriente



“essa idéia
ninguém me tira:
matéria é mentira



               Samurai malandro, caipira cabotino, pensador selvagem, bandido que sabia latim, guerreiro da palavra, caboclo-monge-zen-black-beat. Tudo ao mesmo tempo. Este é o perfil múltiplo do escritor Paulo Leminski. Nascido em Curitiba em 24/08/44, filho de um sargento do exército descendente de poloneses e de uma dona de casa negra, Leminski viveu pela poesia e para a poesia. Só não conseguiu viver dela: além de poeta e romancista, foi tradutor ( inglês, espanhol e japonês), professor ( judô, redação e história), jornalista, publicitário, ensaísta e compositor da MPB. “Para ser poeta, é preciso ser mais que poeta”.

               Após uma vida meteórica e anárquica, vivida com a intensidade de um samurai zen-budista, faleceu aos 44 anos, em 07/06/1989, por complicações do alcoolismo. Era um boêmio assumido: “Pariso, novayorkizo, moscovito, sem sair do bar/. Só não levanto e vou embora/ porque tem países/ que eu nem chego a madagascar”.

               “Amor também acaba? Não que eu saiba. O que sei é que se transforma numa matéria-prima que a vida se encarrega de transformar em raiva. Ou em rima”. O poeta amou com uma intensidade que rivalizava com a urgência da produção que propôs para si: casou-se aos 17 anos com a artista plástica Neiva Souza. Sete anos mais tarde, separou-se para unir à poetisa Alice Ruiz, com quem teve duas filhas, num relacionamento conturbado de 20 anos de duração. De Alice : “em casamento de poetas, a poesia é o maior dos bens em comum.”

               “Acordei bemol, tudo estava sustenido. Sol fazia. Só não fazia sentido”. Foi no Mosteiro São Bento em São Paulo ( para onde foi aos 13 anos e de onde foi expulso 2 anos depois por indisciplina), que ele aprendeu canto gregoriano, sua única formação musical. Ao todo, são 50 composições solo ou em parceria de músicos como Moraes Moreira, Itamar Assumpção, Arnaldo Antunes, Caetano Veloso e Paulinho Boca de Cantor.

               “O bicho alfabeto tem 23 patas ou quase. Por onde ele passa, nascem palavras ou frases”. Leminski surgiu para a literatura na década de 60. São 18 títulos entre livros de ensaios, romances, biografias e poemas, além de 8 volumes de tradução. Do concretismo, soube extrair a valorização e persuasão pela palavra. Da contracultura, o humor e questionamento às mistificações. Sobre ele escreveu o poeta Haroldo de Campos, em 1963: “... Rimbaud curitibano com físico de judoca, escandindo versos homéricos, como se fosse Bashô...”. Bashô, poeta-samurai japonês, o Pai dos Haikais, inspirou Leminski, que estudou, praticou e ajudou a disseminar a forma poética no Brasil. Seu interesse pelo oriente não se limitou a haikais: faixa preta de judô, praticante da filosofia zen, também se aventurou nos koans ( anedotas-paradoxo japonesas), perpassados com fino humor. “Vai vir o dia, quando tudo que eu diga seja poesia”. Seus versos inteligentes e repletos de armadilhas verbais são líricos, sensuais e irônicos. Além dos poemas breves e haikais, há também prosa, infanto-juvenis, roteiros de cinema, ensaios. Há ainda quatro biografias reunidas no livro Vida: do poeta negro catarinense Cruz e Souza, Bashô, Jesus Cristo e do revolucionário Trotski.

               “Haja hoje para tanto ontem”. A obra do poeta de vanguarda curitibano continua despertando a atenção de escritores, estudiosos, diretores de teatro e cinema e tradutores. Millôr Fernandes disse certa vez em analogia à tecnologia de ponta, que há seres humanos de ponta. Na literatura brasileira do século XX Paulo Leminski certamente é um deles.


“Tudo dito, nada feito, fito e deito”.



* Dados biográficos extraídos de “O bandido que sabia latim”, de Toninho Martins Vaz – Editora Record, 2001, 380 páginas.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

COMO ENLOUQUECER UM MÉDICO EM 12 LIÇÕES



Gente, hoje é dia do médico.
Recebi o texto abaixo por e-mail, desconheço a autoria, mas ele é perfeito para celebrar a data.
Se você tiver um médico de estimação, dê um alô pra ele hoje. Garanto que ele vai ficar super feliz.


01. Comece a consulta reclamando da demora, mesmo que tenha sido atendido rapidamente. Depois diga ao médico que ele é o décimo terceiro que você procura pelo mesmo motivo, e que você só quer mais uma opinião, pois não confia muito em médico. Diga também aquela frase clássica: "Cada médico fala uma coisa".

02. Nunca responda diretamente as perguntas. Caso ele pergunte se você teve febre, diga que teve tosse. Conte tudo detalhadamente, começando, se possível, desde quando você ainda era criança...

03. Leve sempre 03 crianças com você (nem precisa ser seus filhos): especialmente aqueles que mexem em tudo, sobem nos móveis, ficam fazendo perguntas no meio da consulta. Combine previamente com uma delas para quebrar o termômetro do médico.

04. Peça receita de um medicamento controlado. Diga que não é para você, mas para uma vizinha muito amiga sua. Não esqueça de dizer que ela toma esses remédios há anos e que não fica sem eles, e que você quer retribuir um favor dela.

05. Quando o médico perguntar que remédio você está tomando diga que não se lembra do nome, mas "que é um comprimido branco" e que você está pensando em parar porque não está funcionando e "que está atacando o estômago" como, aliás, todos os comprimidos que você toma. Aproveite para pedir uma "injeção".

06. Quando o médico estiver se despedindo de você na sala de espera, diga bem alto, para os outros ouvirem também: "vamos ver agora se o senhor acerta"!

07. No retorno da consulta inicie com: "estou pior do que antes". Aproveite para incluir no relato novas queixas. Diga que você passou por um farmacêutico, muito antigo e muito conceituado no bairro que sua tia mora, e ele resolveu trocar os remédios.

08. Insista para que o médico tente descobrir a causa daquela cólica que você teve há seis meses, e que desapareceu misteriosamente. Insista em contar os sintomas com riqueza de detalhes.

09. Traga os exames solicitados por médicos de outras especialidades. Se ele for clínico geral, consiga um eletroencefalograma para ele dar laudo. Pergunte se ele faria o favor de ver a mamografia de sua vizinha (outra).

10. Descubra onde seu médico dá plantão a noite, e só passe a procurá-lo lá. De preferência em hospitais públicos, onde ele não ganha por ficha de paciente.

11. No final da consulta, pergunte se ele não faria o favor de dar um atestado, pois você não "teve condições de trabalhar hoje" ou então, diga que você tinha que resolver uns probleminhas e não deu para ir trabalhar.

12. Se ele lhe perguntar: "Qual é o problema que o traz aqui?" responda: Não sei ... O médico aqui é você.

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domingo, 17 de outubro de 2010

Hoc opus, hic labor est *

                                                               tirinha de Carlos Ruas




No princípio Ele disse: Fiat lux
Depois veio um romano: Dura lex, sed lex
Até chegar o Lula : duralex é da Santa Marina. Pra acabar com esta sujeira pesada, melhor é Ajax. 


* é aqui que a porca torce o rabo


.

tire o magritte do caminho que o munch quer passar com a sua dor







( deus me) livre pensar


a razão do grito  gutural e trágico
é pre_ siso no surrealismo mágico
ou expressão da angústia existencial
verde fruto do pecado, o original?+

.
( vai ver é o grito do cara assustado
ao ver o preço do ingresso cobrado
nos shows de Paul em novembro no Brasil
é Beatle, eu sei, mas p** que pariu ) ++

.


+ referência às obras do expressionista Edward Munch e de René Magritte, ícone do realismo mágico

++ conta-se que Linda McCartney comprou um lote de quadros de Magritte para presentear Paul no Natal. Ao fundarem a Apple, os Beatles logo tiveram a idéia de usar a maçã verde de Magritte como logotipo da empresa 

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sábado, 16 de outubro de 2010

Filosofia barata

                                                           tirinha de Carlos Ruas



I -
 o barato da barata
    é que ela desbarata
    até quem diz bravata

.


II -
a beata com sangue de barata
      engole os sapos do padre
      sonhando com a comadre
 sapata
           ( lá, a barata da vizinha
      e a dela cá, tão sozinha...)

.

III -
 essa barata biruta
       só pode ter alma
 de acrobata


.
IV -
gaúcho não mata barata
       que pior que barata
       é o bah... rato


.
V -
 se tivesse na Martinica
      vivido Kafka
     em lugar da barata
     teria sido mexerica?



.
VI -
 a barata tonta
       faz que morre,
 desmorre, sonsa
 tudo cascata



.
VII - Hai-cainojo

 patas de barata
na batata da perna
em passeata



.
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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Triolé das ventoinhas*


Catavento, de Luciana Teruz ( 1961)

( com Aléxia Alvim )


A mulher é um catavento
Vai ao vento que soprar
Entre a força e o acalento
A mulher é um catavento
Desfigura seu intento
Conforme lhe interessar
A mulher é um catavento
Vai ao vento que soprar

Pela parte que lhe cabe
A mulher é um catavento
Do sufrágio, que desabe
Pela parte que lhe cabe
Em sutiãs, a luta sabe
Mayo gris, protesto bento
Pela parte que lhe cabe
A mulher é um catavento




* Intertextualidade ao poema "As ventoinhas", de Machado de Assis

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Tô ficando atoladinha


tirinha de Carlos Ruas


Dúvida cr(u)eu

Cristo, Gandhi, Galileu
odiariam funk
tanto quanto eu?

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segunda-feira, 11 de outubro de 2010

domingo, 10 de outubro de 2010

Trocadalhos do carilho

O objetivo é conquistar a Ásia

O fim do mal estar

ligue-se na lógica do jogo:
se Eno acabar com a azia
e o mundo  der fim na Ásia
o mundo acaba fudEno

quem vai dar cabo do_ Eno?

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sábado, 9 de outubro de 2010

A história se repete

.
Hai-kaos emergente

jamais confunda
  lindo conto de fadas
com longo conto de foda
.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Criacionismo


Amor e sexo

Deus me deixa perplexo
fez da mulher ser complexo
e do homem desconexo

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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

amor perfeito


traga-me flores
pra enfeitar meus vasos sanguíneos
compre-me um véu
pra velar a menina dos olhos meus
estrele meu céu da boca
me desfrute as maçãs do rosto
uive pros lobos das minhas orelhas
sacie meus pequenos lábios
regue a planta dos meus pés

( que eu coroo
as suas cabeças )

.

Do pouco o muito que se diz

( para Paula Alvim)



Biribiri, Diamantina - foto de Márcio Ares, 1999



Outro dia disse a uma grande amiga, como tantas outras vezes a tantas
outras pessoas, ao longo da minha vida: "seja quente, ou seja frio; se
for morno eu te vomito”. Acrescentei, ainda, como sempre: “é bíblico!”
Mas ela, claro, perspicaz como sempre (filha da puta!!!!!!), tinha que
questionar a origem do negócio!!!! Oh, menininha difícil, gente!!!!

Fiquei eu sem base. O mundo acabou. É que o amor pelas coisas que a
gente gosta às vezes até nos deixa cegos para os detalhes que o situem
devidamente.

Por bem ou por mal, pus-me a procurar. E graças a Deus - ou seria aos
homens? – paradoxalmente descobri o divino entre as bandas largas do
mundo que, como dizem, levam mais facilmente ao inferno que ao
paraíso. Só então comecei a gostar desse trem de ir e vir na busca
das coisas que aquietam o espírito. Dei de achar que escreveria uma
crônica. Ri por mim e pela minha amiga. Ri pelo inusitado da coisa. Ri
porque tinha alegria.

E "eis o Homem", dizendo, por meio da carta à Igreja de Laudicéia, a
última das cartas às sete igrejas ditadas por Jesus a João, aquele do
Apocalipse, a tal frase. Descobri que tinha mesmo que ter alguma coisa
a ver com o fim do mundo da hora em que ela me perguntou sobre a
gênese da coisa, o momento fatídico.

Muito se tem falado a respeito dessas cartas, alguns comentam que
existe aí uma seqüência em termo de tempos da Igreja de Jesus; outros
comentam que é pura invenção e razoável poesia. E outros simplesmente
põem a gente em dificuldade fazendo pergunta difícil, desencontrada do
costume de silêncios, ignorância ou respeito ao que se quer
inquestionável, sobre o qual perguntar é quase que um feito ilícito.

Eis a narração constante do décimo quinto versículo do capítulo 3:
"Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente; oxalá foras frio
ou quente! Assim, porque és morno, e não és quente nem frio,
vomitar-te-ei da minha boca."

E aí está a explicação do que pus pra fora de mim, sem temer a
escuridão de perguntas que nos tirem dos trilhos.
E aqui está a prova de que os amigos nos fazem caminhar rumo a
sabedoria, mesmo quando a razão de tudo se faz a partir de algo tão
cotidiano quanto o que dizemos aos amigos em momentos de pouca
cerimônia, sem muito aviso e nenhum esforço intelectual à vista.

Contei tudo isso a ela, a menininha difícil. Fi-lo por email, esse
caminho de palavra que atropela a nostalgia dos tempos de papel
pautado, escrita a mão e luz do dia.
Minha amiga então responde: “Uai, se eu soubesse que cada dúvida minha
poderia virar uma crônica deste quilate, eu passaria a vida inventando
perguntas...” Disse ainda que tinha gostado de ler a resposta e de
saber que o meu lema era ser quente ou frio, nunca morno,
desarranjando assim o meu gelo e meu fogo às vezes tão extremamente
mantidos.

De tudo isso eu só entendi carinho. Fiquei mais quente na crença dos
elogios. Fiquei mais gente, mais inteligente pras coisas de Deus,
mais pronto para as coisas grandes e pequenininhas. O que era amor
ficou para sempre um olhar que sabe, diz e pressente.

Dia desses hei de perguntar a essa minha amiga sobre o “tempo para
cada propósito debaixo desse céu”. E quem sabe eu descubra existir
assim tão plena, além do tamanho do meu sentimento por eclesiásticos
poemas, alguma verdade terrena como essa que há tempos me acalenta.

Ou terá sido mesmo isso o que ela me disse?



 
Márcio Ares é mineiro, filósofo, compositor, poeta, fotógrafo,  e policial militar nas horas vagas. Ganhou vários prêmios de literatura por causa do passarinho que carrega no peito e que faz ele trinar coisas líricas e profundas toda vez que abre o bico. Já viajou praticamente o mundo todo e  assistiu ao espetáculo "Mulheres de Holanda" 34 vezes. Tem uma dificuldade antológica para assuntos internáuticos, mas conhece muita gente interessante, inclusive o Carlos Nunes, grande ator, produtor e roteirista mineiro, a quem me apresentou ( e quem eu era louca pra conhecer). Junto com a Cynthia, me faz rir muito. Está, pois, perdoado por me chamar de menininha difícil ( o filha da puta, ele resolve com a minha mãe quando encontrá-la no céu  - pressinto que hão de ser bons amigos)

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domingo, 3 de outubro de 2010

Manual de Barros


pequena coletânea de versos, frases e pensamentos de Manuel de Barros*
.
( porque maior que o infinito é a encomenda )

.


1. A poesia não existe para comunicar, mas para comungar.

2. Poesia é a loucura das palavras

3. Poesia é voar fora da asa.

4. As coisas que não existem são as mais bonitas.

5. Agora tenho saudade do que não fui.

6. O olhar segura a palavra na gente.

7. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.

8. Não gosto de dar confiança para a razão, ela diminui a poesia.

9. Bocó é um que descobriu que as tardes fazem parte de haver beleza nos pássaros.

10. A inércia é meu ato principal.

11. A maior riqueza do homem é a sua incompletude.

12. Repetir, repetir, até ficar diferente. Repetir é um dom do estilo.

13. Há certas frases que se iluminam pelo opaco.

14. Ontem choveu no futuro.

15. Por pudor, sou impuro.

16. O artista é um erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.



* Manuel de Barros (Cuiabá, 1916)


Livros recentes:
Menino do Mato, editora Leya Brasil, 96 pags., R$ 29,90
Poesia Completa, editora Leya Brasil, 496 pags. R$ 69,90

troca troca biruta



Político lírico

troca-se vereador edílico
por vereda lúdica e idílica,
sen_a_dor
.


 Fração ideal

troco sujo meio de vida
por quarto limpo
quinta arejada
 e comida

.

Devassa

troca-se véu virginal, homem fiel
e  lua de mel
por uma vaga de garota
de bordel

.
Traças e troços

troco tronco grosso
tirado de  destroços
por um anti traças
que dê cabo deste troço

.

Ferro na boneca

troca-se testa de ferro de mentira
por ferro testado, de verdade,
que seja bom de mira
e  esquente com vontade


Allegro ma non troppo

troco sem dó uma nonna
três oitavas a_si_ma
por re_ceita a la carbonara
de hot dog abbaio

.

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sábado, 2 de outubro de 2010

sub_missão

* girl before a mirror, Pablo Picasso



olha, eu te desejo tanto
que nem mais tenho vontade
de me sub_verter em pranto
ou manter a dignidade


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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

pt saudações



o que nos prejudica
mais que eleger o tiririca
é essa maldita ética de titica
.

uaireless


mineiro bom de serviço
conta prosa, cria causo
(con)versa um tanto de coisa
- carece mais do que isso?!


preparado e assado para o http://www.tertuliapaodequeijo.blogspot.com/, blog de mineiros peso pesado ( e eu de bobs lá no meio, but... anyway ...)