segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
João e Maria
O primeiro me surpreendeu a laço
todo beijos e carícias - amém
batia, amassava-me o rosto, à toa
dizia ter vindo de joão pessoa
até que deu uma de joão sem braço
pois bem lá no fundo era um joão ninguém
O segundo se aproximou de carro
feio, mas danado de bom e gostoso
quis dar-me casa feito um joão de barro
nunca cedia, tal qual joão teimoso
até que um dia quis se estrangular :
perdeu a cabeça como joão goulart
O terceiro veio após brava reza
dançou, pulou fogueira de são joão
apresentou-se a meu pai - tudo em vão
tal como um joão coragem que se preza
anunciou nosso fim numa noite de eclipse,
não era joão de deus, mas o do apocalipse
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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Dia da Cara de Pau
A idéia de homenagear categorias em datas especiais não é original e surgiu para fomentar o comércio. Mais tarde, a internet pegou o gancho e hoje o correio eletrônico nos atola com mensagens do Dia do Amigo, do Beijo ( virtual?!), da Saudade...
Espero incluir meu nome na História, sugerindo a instituição do Dia da Cara de Pau. O lançamento oficial em Brasília precederia uma campanha mundial, patrocinada por Bush e Fidel Castro. O padroeiro já está escolhido: o Santinho do Pau Oco. Réplicas de imagens religiosas mineiras do século XVIII, em cujo oco contrabandeava-se ouro e pedras preciosas, seriam vendidas como souvenirs. Por fora, a pureza religiosa; por dentro só Deus sabe!
A data lavará a alma dos mais inibidos, boa oportunidade para ficar pau a pau com o falso amigo que posa de bacana, mas é mais underground do que o capeta. Jogadores perna de pau que se acham os tais, paus dágua e suas desculpas desconjuntadas teriam, enfim, um dia para chamar de seu ( assim como o Zé Dirceu!). Aos que metem o pau em você, desconsiderando as próprias limitações, bastaria um belo cartão. Antevejo a campanha publicitária : “Pra que quebrar o pau, se agora existe o Dia da Cara de Pau?”.
Finalmente saber-se-ia com quantos paus se faz uma canoa. O colega que apresentou como dele uma idéia sua faria jus a troféu alusivo à data. Garotas tratariam com devoção o namorado bissexto que aparece quando quer – nunca aos fins de semana! – e comenta “Menina, como você está sumida!”. CDs e livros seriam enviados aos que pedem objetos emprestados e apreciam tanto que nunca mais devolvem. Rapazes que justificam rupturas de relacionamento com a máxima “Você é boa demais para mim” ficariam inseguros ao receber telefonemas amistosos das preteridas : o risco que corre o pau, corre o machado. Nada de chutar o pau da barraca daquele ex-amigo a quem você emprestou dinheiro e que, além de não te pagar, ficou de mal. Ele há de te receber de braços abertos, na maior cara dura, neste dia.
Indústria e comércio matariam a pau. A venda de cera, óleo de peroba e lustra móveis atingiria patamares recordes. Todo o Planalto recenderia a lavanda e jasmim e, por um dia, o mau cheiro abandonaria nosso Reino da Dinamarca. Agências de turismo veriam esgotados seus pacotes para Brasília, a rede hoteleira teria ocupação massiva. O povo voaria de avião para homenagear sei-lá-quem. Com risco dos computadores da torre de controle darem pau, eu não viajaria... nem a pau!
Político que se preza é pau para toda obra. Ministérios, senado, câmaras de deputados e vereadores se fariam presentes na seção extraordinária de celebração da data, bandeira nacional hasteada a meio pau. Para culminar, nosso patrono mataria a cobra e mostraria o pau através de discurso em cadeia nacional. Provando que em casa de ferreiro o espeto é de pau, o ex presidente Lula reafirmaria desconhecer o episódio do passaporte diplomático do filho e garantiria pronta devolução. Ao fim, a nova presidente Dilma reeditaria o Manifesto Pau-Brasil – o Modernismo também irrompeu nas hostes de esquerda -, comprometendo-se a eliminar de vez a desigualdade social.
Cara de pau que nasce torto...
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domingo, 13 de fevereiro de 2011
Se eu fosse você, conferiria
Na operadora da TV a cabo finalmente me atendem. Como não estou de posse do número de inscrição, a voz avisa que vai estar tentando localizar meu cadastro na Central. Passo nome, endereço, CPF, telefone, profissão - os dados não estão conferindo. Ela me orienta, sempre no gerúndio, a estar ligando novamente tão logo tenha o dito número em mãos.
Resigno. Chega uma hora na vida de todo mundo em que os dados não mais conferem. Pode ser o vestido que entrou apertado na cintura ( tem certeza que é 42?), o salário no fim do mês, justificativa de filho... Se bobear, sobra até para o marido, tão amado no particípio: um belo dia, falta gerúndio – se é que você está me entendendo. Simples assim, ad infinitum.
Aparências enganam, nem tudo que reluz é ouro, quem vê cara... Se a gente seguisse conselho de mãe e conferisse sempre, livraria de muitas e boas. Até o incrível galinho do tempo da infância ( se a camurça ficava azul, sol; rosa, frio; cinza, nublado – lembra?!) um dia encardia, perdia o efeito camaleônico e, desfeita a magia, ia direto para o lixo.
Modelo que diz “No início chorei de vergonha para tirar a roupa, mas a equipe gracinha me deixou super à vontade” é tiro e queda: a peladona já saiu de casa saltitante. O dentista afirma que o tratamento de canal vai doer só um pouquinho. Não confere, você pensa, ao sentir britadeira, pé de cabra e serrote na gengiva. A faixa “Procura-se cãozinho. Criança doente” eu já conferi: foi colocada por um senhor barbado, que pranteava o sumiço da pinscher Kika.
Olho vivo com o homem gentil, culto e espirituoso que você conheceu na sala de bate-papo virtual: ele pode ser um pervertido ou, pior ainda (?) – há de tudo neste mundo -, ele pode ser ela. Quando a esmola é demais, não custa conferir: esposa divertida, dedicada e compreensiva, que incentiva a saída do Clube do Bolinha para o chope das sextas-feiras, por exemplo. Você não tem sentido falta do Ricardo nesses encontros, não? Longe de mim colocar caraminholas na sua cabeça, que fique claro.
Uns se recusam a enxergar os fatos. Outros fazem o impossível para esconder-se da conferência alheia e a verdade só aparece depois que Inês é morta e já apertamos o verde para confirmar. Se em 2002 eu soubesse o que sei agora... Quem promete e esquece, perdoa e não esquece, governa e não sabe de nada, fuma e não traga, relaxa e não goza deveria receber carimbo permanente na testa: “Dados não conferem”.
Tudo que lançamos – dizem - um dia volta para nós em efeito bumerangue. Sei não... Se é recomendável não enganar o outro, melhor mesmo é conferir sempre. Como diria Millôr: "Quem confere ferro, com ferro será conferido".
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sábado, 12 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
Sabe o Mário?
balaio de gatos*
se você me ama
que o faça
em alto e e bom som
como gatos
namorando no telhado
põe em pé de guerra
os sentidos
( que toda paixão é breve
e a paz mais breve ainda )
quando for me deixar
aí sim:
- o gato subiu no telhado -
que seja bem de mansinho
a partida
( que toda dor é longa
mas a eternidade, mais longa ainda )
* intertexto com o poema Bilhete, de Mário Quintana
Bilhete
Se tu me amas,
ama-me baixinho.
Não o grites de cima dos telhados,
deixa em paz os passarinhos.
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
.....tem de ser bem devagarinho,
.....amada,
.....que a vida é breve,
.....e o amor
.....mais breve ainda.
( Mário Quintana)
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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Conversa de pescador
Tem horas que eu penso que Deus tem um pesador de ânimos pra mandar um alento quando vê que o andor está pesado demais. Foi assim comigo no fim dos anos 80. Meu par de internato rural era Elisa e a cidade, Padre Paraíso, encravada no Vale do Jequitinhonha. Eu não sei se você sabe que o internato rural é uma cadeira do último ano da Faculdade de Medicina, em que a gente passa três meses numa comunidade carente, praticando o aprendido na escola. Umas duas semanas antes da viagem, meu pai adoeceu de doença grave, foi operado e não dava mais pra eu enfurnar a quase 600 quilômetros de casa. Com muito tento, que os alojamentos perto da capital eram concorridíssimos, consegui que Dona Zica, tia do Elton, me recebesse em sua casa. Assim fui parar em Bom Despacho. Assim peguei intimidade com a família do Elton, meu colega de turma.
Eles adoravam pescar. Eu nem sabia pegar no molinete. Mas fui aprendendo e tomando gosto. E quase toda tardinha, menos nas noites de plantão na Santa Casa, Dona Zica passava no posto de saúde do Campo Grande, onde eu trabalhava, pra gente ir pescar. Nem sempre o Elton ia, porque ele era piolho de bloco cirúrgico. Não me espanta ele ter virado um anestesista tão fera. Mas Dona Zica não falhava. Nem os amigos dela e o resto da família. Tinha dia que vinha muito peixe, tinha dia que não dava nada. Eu é que nunca perdi a caminhada: aquele jeito manso de ir rodeando, rodeando, gastando prosa, me enredava tanto que eu sentia a maior falta quando ia pra casa visitar o pai. De vez em quando os causos eram escabrosos demais e eu ficava na dúvida se acreditava ou não. Dona Zica me chamava à razão: bom pescador aumenta, mas não inventa.
Até que um dia aconteceu comigo. Eu nem gosto de contar muito, gente pode duvidar, mas o pessoal que estava comigo está todo vivo, menos a Dona Zica, que Deus a tenha, pra confirmar a história. Eram o Elton, seu Zaqueu, Teodoro, Dona Zica e eu. Teve uma hora, já de noitinha, que as iscas acabaram e seu Zaqueu deu na veneta de pescar com traíra. E não sei se você sabe que traíra a gente mata com facão. Pois bem na horinha que seu Zaqueu levantou o facão para matar a bicha, o Elton enfiou o nariz onde não era chamado. Esqueci de contar que ele era muito do narigudo. Aí já viu: na escuridão, lá se foi o nariz do pobre. Foi um deus nos acuda. Procura que procura, nada de achar o danado. A sorte é que o Teodoro não largava a latinha de rapé por nada neste mundo e a gente esparramou o pó no entorno. Não deu outra: o nariz perdido danou a espirrar e conseguimos localizar o fujão. Nessa hora seu Zaqueu me deu uma bisnaga de durepóxi, que ele guardava pra quando o barco fazia água. Colei o nariz no rosto do Elton e fiz um curativo meia boca, o melhor que consegui. Resolvemos voltar que a pescaria já tinha perdido a graça mesmo. No caminho o Elton começou a perder o fôlego e ficar branco que nem cera. Fomos direto pra Santa Casa. Lá no claro eu entendi o problema: na correria, colei o nariz do infeliz ao contrário, de ponta cabeça. Ainda bem que, além de narigudo, o Elton era danado de bocudo: pela boca ele foi pegando ar até o médico consertar o meu mal feito. Já pensou? Era capaz de não me darem o diploma se ele tivesse morrido afogado...
Pois então, foi assim. Tem também o caso do bagre sentimental, mas esse eu deixo pra uma outra hora.
domingo, 6 de fevereiro de 2011
O corrupto
É obscura a origem do Homo Espertus Corruptus. Fala-se em variação anômala do Homo Sapiens, na descendência de Caim - os pais, envolvidos com a serpente e a maçã, não lhe teriam transmitido valores e princípios. Outra hipótese é a involução de uma ameba presente no lodo do Rio Tietê, o que justificaria a predileção por mares de lama. Já a origem da palavra, corruptela do latim, é clara: coração rompido.
O Corruptus tem características peculiares. Veste colarinho branco, ama política e lava dinheiro com OMO. Discreto, age por baixo dos panos e defende o sigilo de seu território bancário com unhas, dentes e serra elétrica. Idolatra Judas Iscariotes e leva a sério o lema da prostituta “É dando que se recebe”. Apesar de caçar em bandos e quadrilhas, é individualista e solitário. Do rosto sai serragem, obrigando-o a substituir a loção pós-barba por óleo de peroba. Cresce às custas do voto e omissão da sociedade, mas deliberadamente ignora suas regras. Até recentemente, seus recursos fundiários eram transportados em cuecas e malas. Hoje, prefere cartões corporativos. Alguns, marcados pelo estigma da estrela, tornam-se Corruptus após contato com o poder. A transformação inversa, de Corruptus em Sapiens, ainda não foi observada.
O dialeto da espécie inclui termos como armação, negociata, propina e caixa dois. Seu habitat é funcional: multiplica-se onde há condições favoráveis. Prefere climas tropicais de grandes amplitudes sociais. Camufla-se na folhagem eleitoral. Tem o RNA mutante dos vírus, o que impossibilita a criação de uma vacina preventiva. Mamífero, suga as tetas do Homo Sapiens, em parasitismo incansável. Aprecia laranjas e defende o PT - Pizza para Todos. No Brasil, concentram-se no planalto central, mas podem ser vistos em todas as regiões. Ocupam o topo da cadeia alimentar, desde que dois de seus predadores – Punição e Transparência – entraram em extinção. O crescimento só é refreado pelo canibalismo típico da espécie, Imprensa e Polícia Federal. Para se safar dos dois últimos, associam-se, em simbiose, a Advocatus Bempagus. Apesar dos grampos, a PF não consegue rastrear a fauna escondida no mar de lama. Ali nadam de braçadas polvos-dumbo (orelhas e pés enormes captam propostas indecentes e arrombam portas do erário); lula-sapo; tubarões vorazes e escorregadias enguias. Desovam em ilhas fiscais paradisíacas.
Híbridos, possuem abraço de tamanduá, lágrimas de crocodilo, olhos de lince, lábia de vendedor e memória de peixinho dourado. Dissimulados, esquecem, negam, mentem, inventam. Populistas, são benquistos pelo Sapiens pouco informado. Com extrema elasticidade ética, veiculam pestes gravíssimas. Se o contato for inevitável, proteção para os ouvidos, sinal da cruz e dente de alho são armas poderosas: muitos são vampiros sanguessugas.
Todo Homo tem seu preço. O do Sapiens é intangível – amor, felicidade, paz. No Corruptus, é cédula sobre cédula. Não dão ponto sem nó: “Topa, não topa. Morre aqui”. Suborno e chantagem. Magris e obesos, anões e gigantes, calvos e cabeludos usam e abusam do público para uso privado. Infiltram-se no Executivo, Legislativo, Judiciário, Forças Armadas, empresas privadas, igrejas, esportes, ONGs e universidades. Após lotearem a administração federal e seus recursos, relaxam e gozam. E recomendam que o Sapiens faça o mesmo.
Discute-se a razão para a preferência nacional. Para uns, é herança portuguesa. Outros culpam um meio-armador fumante que gostava de levar vantagem em tudo. Há quem atribua a PC Farias o modelo atual de ação. O certo é que estes santos do pau oco alastraram-se, com jeitinho, na sociedade. Hoje são endêmicos e daqui só saem para uma operação no Uruguai ou tratamento psicológico na Suíça, quando se sentem perseguidos. Safam-se sempre. CPIs (Corruptus Politicus Impunis) foram extintas, por inoperância, em países como Dinamarca e Canadá, mas persistem no Irã e Venezuela, nações que disputam conosco o ouro na Olimpíada Mundial de Impunidade.
A dialética do engodo é altamente contagiosa. Homo Sapiens contaminados adquirem DVDs piratas, molham a mão do policial para livrar-se de multas, pagam uma cervejinha para o funcionário público agilizar trâmites burocráticos, permitem que os filhos fraudem nas provas da escola. Uma pequena malandragem aqui, um tráfico de influência por pistolão ali, uma sonegaçãozinha acolá... E salve-se quem puder.
Há situações em que a realidade não tem a menor graça.
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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Dor de cotovelo
Enquanto alguns só têm olhos para o próprio umbigo, perco-me em reflexões com meus cotovelos. Literalmente. Fico imaginando de onde Deus tirou a idéia. Apêndice serve para cirurgião treinar a técnica. Calcanhar mostrou a que veio no gol de Sócrates na Copa de 82. Ajoelhou, tem que rezar. Cotovelo já começa mal pelo nome – e cúbito, o termo técnico, não melhora muito a coisa.
Cotovelos sempre foram meu tendão de Aquiles. Nas lembranças da infância, eles se acotovelam em ensinamentos maternos: “Tire os cotovelos da mesa”, “Só se coça os ouvidos com o cotovelo”, “Não se pode apagar com o cotovelo o que se escreveu com a mão”. Por causa deles, nunca obtive uma aprovação plena pós banho: quem acha que lavar cotovelos é fácil está mais por fora que cotovelo de caminhoneiro.
Na adolescência, cismei que os meus precisavam ser macios – e dá-lhes hidratante e almofadinha de apoio na hora do estudo! Grande bobagem. Gosto é que nem cotovelo, cada um tem o seu, mas nunca conheci alguém que tivesse fetiche por eles. Quem já ouviu falar do cotovelo de Helena, cuja beleza destruiu Tróia? Ou dos cotovelos da Sharon Stone? Vênus de Milo nem os tinha. Ainda assim, por causa de um cotovelo quebrado curti a primeira dor-de-cotovelo: não joguei a final do torneio interescolar de handball e as meninas do Estadual Central, por quem todos os garotos da minha escola eram fascinados, levaram o ouro. Não que eu fosse boa jogadora, mas mordi os cotovelos de inveja. E nunca esqueci a traição. Não foi difícil: até hoje, quando o tempo esfria, o tal cotovelo quebrado dói para me lembrar do episódio.
Só quem experimentou, na pele os transtornos psíquicos que uma pontiaguda dor-de-cotovelo provoca - e chorou por alguém perdido em algum cotovelo do mundo - sabe como dói fundo na alma. Quem souber o segredo anatômico que me explique: por que o pé na bunda dói no cotovelo? Sei lá, só sei que a gente faz cada coisa irracional que parece que o cotovelo foi parar no cérebro. Haja bar, lenço de papel e música de fossa cubital. E dor de cotovelo crônica só cai bem nos versos de dupla sertaneja.
Tem gente que fala pelos cotovelos e sai emendando um assunto no outro - nessa hora, o cotovelo do ouvinte incauto serve para apoiar a cabeça exausta, que finge interesse. Cotovelos e parapeitos de janelas são insuficientes para os que gostam de discorrer sobre a integridade moral dos passantes – dá vontade de falar: "Ora, vá cuidar dos cotovelos!"
Cotovelos são armas de torque poderoso como um martelo. Criam calos. Esfolam. Dão choque. Dão banana em gesto de ofensa. Puem a manga dos casacos. Servem para motoqueiro pendurar capacete e consumistas, sacolas. Acotovelam-se em centros comerciais às vésperas de datas festivas. Proliferam, exponencialmente, em dias chuvosos. Irritantes, são perfeitamente dispensáveis.
Há uns dois meses, quando voltei a praticar tênis, após 15 anos afastada do esporte, passei a sentir uma dor articular renitente e progressiva. Hoje, no ortopedista, recebi o diagnóstico: cotovelo-de-tenista, doença em que há esgarçamento da articulação e cujo tratamento é antiinflamatório e repouso.
Além de terem vida exterior autônoma ( para os tímidos como eu, em situações de desconforto social sempre sobram cotovelos), os meus também têm vida interior e agora decidiram que precisam descansar.
Cotovelos abraçam, é verdade, mas um abraço compensa tanta chateação?
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