quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Fechado para balanço
Ah, enfim férias...
Parto amanhã para a Califórnia, numa viagem super ansiada pela rota 66.
Na segunda quinzena de janeiro, estou de volta.
Bom Natal e que comecemos todos 2011 com o pé direito.
Com carinho,
MPaula
.
A mulher mineira
Minas Gerais é plural, feminina
tem mulher furacão e desdobrável
tem vaca atolada, tem gente afável
Maria da Fé, Moema, Diamantina
Minas tem cara de bruxa aquilina
seu feitiço é fé, arte, tradição
mulher daqui não caça confusão
nem hasteia em qualquer pico bandeira
é chica, bárbara, beja a mineira
colosso pra ela é o mineirão
ser feia é desvio de rota em Minas
ai daquele que for besta e negar
e não é que Minas não tenha mar
o mar é que não dá conta das 'minas
pacatas, guerreiras, doces, salinas
mineira chora em chegada e partida
provocada, fica fula da vida
barroca, ela borda seu rococó:
não diz não pra não magoar, ô dó
não diz sim pra não ser oferecida
mineira exala doída saudade
na bateia ferve a verve em franqueza
boa de escuta, cama, banho e mesa
coração d'ouro, de ferro a vontade
discreta, só fala pelas metade
guarda dinheiro, segredo e plural
conjura sua ironia ancestral
na cama é devassa, mil pecadilhos
tem recatos, é mãe mesmo sem filhos
seus vales e montes, estrada real
com molejo farto atrai gulodice
no corpo, sustança; no olhar, merenda
beijo açucarado só de encomenda
pra mineirar, há que ter peraltice
em fogo brando coze a mineirice
suas receitas são rara poesia
ela espia : não desconfia nem fia
come olho de sogra, amor em pedaços
mineira carrega o mundo nos braços
tem fé na vida, que estranha mania
torce pro Cruzeiro, é fã do Atlético
é furna de graça, meiguice e humor
no barco do lar é vela e motor
sua dolência tem jeito poético
lógica em cascata, falar sintético
gema preciosa, ela sangra minério
mineira tem riso, siso e critério
pede com o olho, esconde a recusa
de truques brejeiros ela usa e abusa
não baixa a guarda, envolta em mistério
já revelo o que é que a mineira tem
tecer, altiva, sem pressa é um dom
em vez de "tudo bem?", diz "'cê tá bom?"
pro mineiro, liberdade é que é Bem
quae serae, uai, pra mineira tamen
ela transpira pecado e virtude
conhece a fonte eterna, a juventude
pra ela quem faz coisa errada apronta
muito é um tanto, sô, dimais da conta
enfim, ser mineira é questão de a(l)titude
tem mulher furacão e desdobrável
tem vaca atolada, tem gente afável
Maria da Fé, Moema, Diamantina
Minas tem cara de bruxa aquilina
seu feitiço é fé, arte, tradição
mulher daqui não caça confusão
nem hasteia em qualquer pico bandeira
é chica, bárbara, beja a mineira
colosso pra ela é o mineirão
ser feia é desvio de rota em Minas
ai daquele que for besta e negar
e não é que Minas não tenha mar
o mar é que não dá conta das 'minas
pacatas, guerreiras, doces, salinas
mineira chora em chegada e partida
provocada, fica fula da vida
barroca, ela borda seu rococó:
não diz não pra não magoar, ô dó
não diz sim pra não ser oferecida
mineira exala doída saudade
na bateia ferve a verve em franqueza
boa de escuta, cama, banho e mesa
coração d'ouro, de ferro a vontade
discreta, só fala pelas metade
guarda dinheiro, segredo e plural
conjura sua ironia ancestral
na cama é devassa, mil pecadilhos
tem recatos, é mãe mesmo sem filhos
seus vales e montes, estrada real
com molejo farto atrai gulodice
no corpo, sustança; no olhar, merenda
beijo açucarado só de encomenda
pra mineirar, há que ter peraltice
em fogo brando coze a mineirice
suas receitas são rara poesia
ela espia : não desconfia nem fia
come olho de sogra, amor em pedaços
mineira carrega o mundo nos braços
tem fé na vida, que estranha mania
torce pro Cruzeiro, é fã do Atlético
é furna de graça, meiguice e humor
no barco do lar é vela e motor
sua dolência tem jeito poético
lógica em cascata, falar sintético
gema preciosa, ela sangra minério
mineira tem riso, siso e critério
pede com o olho, esconde a recusa
de truques brejeiros ela usa e abusa
não baixa a guarda, envolta em mistério
já revelo o que é que a mineira tem
tecer, altiva, sem pressa é um dom
em vez de "tudo bem?", diz "'cê tá bom?"
pro mineiro, liberdade é que é Bem
quae serae, uai, pra mineira tamen
ela transpira pecado e virtude
conhece a fonte eterna, a juventude
pra ela quem faz coisa errada apronta
muito é um tanto, sô, dimais da conta
enfim, ser mineira é questão de a(l)titude
.
intertexto com o cordel de Tadeu Martins "Ser Mineiro"
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terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Curta e grossa
I - Obsessão
Amor de mentira:
põe uma idéia na cabeça
depois, ninguém tira
II - Escrito nas estrelas
Procuro no zodíaco uma pista:
sol em Virgem é problema
a prazo ou a vista?
III - Disfarce
No seu manso abraço
desfaço-me
nada como um bom amasso
IV - Lance de dados
Azar no amor
muitas vezes é sorte
amor de favor
é que é de morte
V - E o vento levou
O amor que invento
desvenda-me
ao sabor do vento
VI - Tudo acabado entre nós
Quando você me deixar
por favor não se queixe,
não me deixe,
só se f(l)or.
.
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
Zero a zero
Não aqueço nem aquiesço : esqueço
Não atino nem desatino : destino
Não velo nem desvelo : relevo
Não clamo nem reclamo :
Te amo.
domingo, 12 de dezembro de 2010
é duro ter coração mole
se tudo começa
do mesmo jeito
por que a gente
abre sem dó o peito
e jura que dessa vez
vai acabar diferente?
.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Aprendi com o tempo
The persistance of memory - Salvador Dali
tardes quentes de verão
percebo que tenho sombra
chovo forte, à exaustão
enfrento o escuro que assombra
nas noites frias do outono
conheço a lição do Nada
o que não posso, abandono
renúncia faz-se calada
em madrugadas de inverno
volto pra dentro de mim
acolho-me, ser eterno
regresso pra de onde vim
das manhãs de primavera,
aprendo a confiar silente
degusto o sabor da espera
tempo é produto da mente
observo, por onde vou
peças de um elo perdido
cumpre-se aquilo que sou
nada mais me é pedido
.
domingo, 5 de dezembro de 2010
De poeta e de louco
Que pesa, apreça, pondera
Outra metade é ninguém
Leve, sem pressa, pudera
Parte de mim é esteta
A la Ferreira Gullar
A outra, vida concreta
Urge que eu vá trabalhar
De perto, a parte ternura
Crê, treme, sonha, reluta
Ao longe, o lado bravura
Não teme, assanha, disputa
Dentro de mim vive um ente
Que fala e sabe de Tudo
O seu vizinho, demente
Nada: surdo, cego, mudo
Minha porção bissetriz
Reparte a arte, esquarteja
Faz sua parte, a infeliz
Descarta a alma, esbraveja
A face poeta projeta
Panfleta sua arte bruta
A parte asceta é profeta
Aparte: sou anjo biruta.
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terça-feira, 30 de novembro de 2010
No olho do furacão
A estante estava propositalmente escondida num canto, ainda na embalagem da loja. Ela havia se prometido mandar fixá-la à parede antes que Ele a descobrisse. Ele era do tipo prestativo, que gostava de fazer as coisas com as próprias mãos – suas e de quem aparecesse no caminho.
Acontece que Ele acordou no domingo, viu o embrulho e, resolutamente, anunciou que assumiria a empreitada. De nada adiantaram os argumentos para deixar aquilo para lá e aproveitar o dia, ele já trabalhava tanto...
“ Que nada, isso para mim é terapia!” – aquilo, em bom familiês significava “cancelem os compromissos que a jornada será longa”. Prepararam-se para o pior : muita gente, à beira de um ataque de nervos, ia carecer de terapia até o fim do dia.
Preparação: uma filha devia buscar o tamborete, a outra, a trena e a terceira, o lápis para marcação dos furos. E que Ela não saísse do lugar, para garantir visualmente que as marcas estavam corretas. Falando nisso, alguém tinha visto o nível dágua?
Meia hora depois, a parede parecia um tabuleiro de War, tantos eram os pontos assinalados. Onde estava a furadeira? Cadê o fio de extensão? Quem guardou os óculos de proteção da última vez? Foi então que Ele descobriu que faltavam buchas e parafusos. Não se apertou: que a filha mais velha fosse tomar emprestado ao vizinho. Enquanto esperavam, que tal a outra pegar uma cerveja bem gelada? Cerveja combina com tira-gosto, claro, e lá foi Ela providenciar Seu desejo.
Buchas, parafusos, cerveja e tira-gosto a postos - hora de reiniciar o trabalho. Que uma das meninas ficasse por perto, para o caso de Ele precisar de alguma coisa. Que a outra posicionasse a pazinha logo embaixo de cada furo para aparar o pó, que a terceira buscasse a lata de lixo... E que Ela escolhesse um CD para alegrar o ambiente e celebrar aquele momento especial de trabalho em família.
Tentando entender o esquema da montagem, Ele virou-se abruptamente e o fio da extensão enrolou no tamborete. Em desequilíbrio, Ele caiu sobre o vaso de Murano, herdado da avó dela. Em efeito dominó, o vaso derrubou o aquário, deitando peixes e água sobre o tapete arraiolo. Enquanto todos se mobilizaram para salvar os peixinhos, Ela imaginava como tirar o cheiro de peixaria do tapete novo. Na tentativa de salvamento, Ele cortou o dedo nos cacos da relíquia e a cortina branca de percal, recém chegada da lavanderia, Lhe pareceu a gaze perfeita para estancar o sangue. Ele soltou um palavrão ao ver o tamanho do corte e Ela quis saber se aquela era a linguagem usada no curso domiciliar de formação de delinqüentes juvenis.
Ao fim do dia, estante e prateleiras na parede salpicada de marcas de dedos, o ambiente parecia devastado por um furacão. No meio dos destroços, Ele admirou o trabalho realizado e, em estado de graça, comentou: “E tem gente que pagaria um dinheirão para mandar instalar esta estante!”
Da próxima vez que Ele decidir assumir alguma tarefa doméstica, Ela jura que, nem que chova canivete, vai para Nova Orleans conferir in loco a devastação do Katrina sobre a cidade.
Ela duvida muito que seja pior do que o estado do escritório naquele momento.
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sexta-feira, 26 de novembro de 2010
moral da história
Contar nossa história
em minúcia, assim e assado
é querer que a memória
liberte-nos do passado
.
É sempre assim
o que teve começo
logo chega ao meio
e um dia vai ter fim
.
Paixão é sempre veneno
mesmo se não a mato,
me condeno
.
Se os sonhos não têm preço,
desapreço ou endereço
prá onde você vai
com tanta pressa?
.
Dois só guardam um segredo
se for bem tolo o enredo,
um for posto em degredo
ou jazer sob um lajedo
.
A vida é contrato de risco:
essa coceira no olho
pode tanto ser glaucoma
ou nada mais que um cisco
.
Perna de pau
ah, se ele me desse bola
eu compunha uma embolada,
flanava como um balão
e ia ficar muito bela
com esse amor zero bala
ah, se ele não pisasse na bola
eu disparava a_balada
limpava da alma o bolor
dançava balé
se bobear, balia até
isso se ele me desse bola
( podia ser até de gude )
mas ele anda ruim da bola
não sou a bola da vez
e pra gandula
só restam os bolos
ora bolas
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quarta-feira, 24 de novembro de 2010
dose dupla
Ghost hunter
quando as sombras
deixarem de te assombrar
os fantasmas, assustados
mudarão de lugar
Oásis
se espera que eu deserte
seu coração, de_certo
já é deserto
.
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segunda-feira, 22 de novembro de 2010
sábado, 13 de novembro de 2010
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Eis a questão
"Abençoado é o homem que, não tendo nada a dizer, abstém-se de dar provas do fato com palavras"
George Elliot
Era um homem que adorava citações.
Até seu silêncio exalava entrelinhas.
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terça-feira, 9 de novembro de 2010
O repouso do guerreiro
Esta é uma daquelas histórias com moral, inspirada em diálogo entreouvido em capítulos no restaurante onde almoço algumas vezes por semana.
Ela, loura e linda, ainda não chegou aos 30. Ele, que já deve ter tido cabelos mais castanhos e em maior quantidade, atravessou o portal dos 50 faz tempo. E todo mundo sabe (ou deveria saber) que, ao contrário dos de menos de 30 que vão direto ao assunto e instantes depois estão prontos pra outra, após os 50, os preparativos e a recuperação são mais longos que a ação propriamente dita.
Ela, a cem por hora. Ele, em ponto morto, naquele interstício de fadiga e espera, em que o combustível que esvaiu-se do tubo ainda não chegou ao tanque original – coração e pulmões.
- Benhê...
- ...
- Benhê...
- Não começa, Maria Alice. Tira o dedo do seu pé da sola do meu.
- Uai, por que? Tá te incomodando?
- Está me desconcentrando.
- ...
- Não faz essa cara, querida. Eu sei onde seu dedinho quer chegar. Mas também sei que Ele aqui não vai a lugar nenhum. Não agora.
- Ta. Então vamos conversar.
- ...
- Fala alguma coisa, vai...
- Quem disse que precisa conversar?
- Não entendi...
- É, onde está escrito: na Bíblia ou no Kama Sutra?! Por que não falar tudo antes, durante??? Por que tem que ser depois?!
- Puxa, que mau humor, hein?!
- Chega pra lá, vamos dormir um pouco.
( ... )
- Benhê... pega um copo dágua pra mim?
- Outra vez?! Precisa ver se você não está diabética...
- ... com três pedras de gelo.
- Tem que ser agora?
- Por favor.
- Já vou pegar... daqui a pouco.
( ... )
- Armandô ... Continuo com muita sede...
Ele foi. Sem força e sem vontade, mas foi. Quando sentiu os efeitos do ar frio da geladeira, pensou em Laura. O que ela estaria fazendo àquela hora? Não sabia. Mas de uma coisa ele sabia: se ela ainda estivesse ali, não ia ter essa de puxar papo ou buscar água... O que ela dizia mesmo? Ah, que mulher que não cai no sono depois, é porque não gozou.
Bateu muita saudade naquela hora. Sem gozação.
Moral da história:
Evite assuntos muito pessoais em restaurantes.
Acaba virando papo crônico. Ou crônica.
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domingo, 7 de novembro de 2010
Porre sintético
Amantes ao luar - Marc Chagal
Serenata sintética
"lua morta
rua torta
tua porta"
Cassiano Ricardo
Bebeu todas até uivar para a lua.
Ninguém mais lhe respondia: lua e ela pareciam mortas.
Só sua mão, em carne viva, insistia em bater à porta da casa dela.
Àquela hora.
* alongamento da Oficina Criativa
sábado, 6 de novembro de 2010
Amor ao pé da letra
Ao pé das letras a gente vai conhecendo diferentes alfabetos e se deixando conhecer. Há textos pessoais como letras cursivas; padronizados como letras de forma; claros como letras redondas; guturais como letra de médico. Uns são tristes e melancólicos como letras góticas, outros esvoaçam como as borboletras pernambucanas. Alguns estão prontos para cair na boca do mundo, como letras de imprensa, dignas de um belo letreiro. Letras de câmbio estimulam trocas; outras se aquietam, imobiliárias. Raramente aparecem letras anônimas, literadiças e minúsculas, destiladas em comentários maldosos. Importa as maiúsculas - aquelas que te fazem rir, sonhar, pensar, sentir. Letras que se combinam, vogais e consoantes, em textos líricos, filosóficos, informativos, divertidos...
Para bom leitor, pingo no i é letra. Algumas a gente lê com olho de exclamação, outras dão vontade de abrir parênteses e gritar: gol de letra! Umas são cheias de aspas e outras, convite para o diálogo, puro travessão. Letras reticentes e letras com vírgulas de se tirar o fôlego. Letras que deixam interrogação e outras definitivas como ponto final.
Umas te encaram, ousadas e francas. Outras te olham de soslaio, entre tímidas e apreensivas. Letras te fazem viajar e há as que te prendem no chão. Textos que você gostaria de ter escrito e palavras que você sabe que nunca escreveria. E a gente de repente se pega sorrindo para a tela do computador, admirando a inteligência e perspicácia de um, a delicadeza e sensibilidade de outro, a transcendência, a sensatez, a doçura, a firmeza, a intensidade emocional... E de repente se dá conta que por trás da sopa de letras há seres humanos consistentes e nutritivos.
Talvez pela primeira vez na história da humanidade, as pessoas se conhecem em sentido literal não bíblico. Não falo só dos que optam pelas relações virtuais em detrimento do mundo real. Falo também de gente com razoável trânsito social que de repente descobre as delícias do contato pelas vagas nuvens de elétrons que trafegam em alta velocidade pelos cabos internautas. E descobre afinidades que muitas vezes se transformam em admiração e respeito. Ora vai-se curtindo a relação devagar, conhecendo, pouco a pouco, os detalhes do autor das letras; ora dá vontade de pular preliminares e chegar logo nos finalmentes, na relação cara-a-cara.
Letras não só têm pé, mas também cabeça e coração. Por isso se atraem ou se repelem; se respeitam ou se amam. E sofrem. Há coisas que nem um coração letrado consegue tirar de letra.
.
domingo, 31 de outubro de 2010
Curtas de Cacaso, o anjo marginal
Falando sério
Outro amor? Não caio mais.
.
indefinição
pois assim é a poesia
esta chama tão distante
mas tão perto de estar fria
.
happy end
o meu amor e eu
nascemos um para o outro
agora só falta quem nos apresente
.
estilos trocados
meu futuro amor passeia - literalmente - nos píncaros daquela nuvem.
Mas na hora de levar o tombo adivinha quem cai.
.
lar, doce lar
minha pátria é minha infância
por isso vivo no exílio
.
Na corda bamba
Poesia,
Eu não te escrevo
Eu te
Vivo
E viva nós!
.
Problemas de nomenclatura
Rememoro com resignado e fervoroso amor
A primeira namorada.
Mas o nome dela dançou
.
ah!
Ah se pelo menos o pensamento não sangrasse!
Ah se pelo menos o coração não tivesse
[memória!
Como seria menos linda e mais suave
minha história
.
Estilos de época
Havia
os irmãos Concretos
H. e A. consangüíneos
e por afinidade D. P.,
um trio bem informado:
dado é a palavra dado
E foi assim que a poesia
deu lugar à tautologia
(e ao elogio à coisa dada)
em sutil lance de dados:
se o triângulo é concreto
já sabemos: tem 3 lados.
.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
La Boca
A boca me abocanhava
e dizia que eu era
sua bo(ne)quinha de luxo
sua bo(ne)quinha de luxo
vive agora numa biboca
na boca do lixo
.
na boca do lixo
.
a boca me desbocava
- bendita seja, ma(ra)dona -
- bendita seja, ma(ra)dona -
hoje sai rebocada
das bocas de fumo
das bocas de fumo
.
a boca citava bocage
- ai, aquela boca de lobo -
antes de ir-se
desembocou em mim
o boca juniors
.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Cordel da mulher zangada
Quando me bate uma zanga
abro o peito, solto a franga
falo pelos cotovelos
mostro a garra, eriço os pelos
não é que eu seja aloprada:
pra brigar eu dou boiada
Quando fico p da vida
armo o que até Deus duvida
faço bico, ofendo, emburro
em ponta de faca esmurro
eu não fico só de mal
mato a cobra e mostro o pau
Dizem uns que sou histérica
que conter-me é lida homérica
outros que sou barraqueira
é intriga da oposição:
desgraça pouca é besteira
sou mulher de opinião
Muita calma nessa hora
senão a fera apavora
dou chilique, faniquito
arrebento e arrebito
viro bicho, incrível Hulk
da finesse, adeus o look
Não mexa comigo, moço
que eu não engulo caroço
no facebook e orkut
me vingo, no saco um chute
posso não ter muito músculo
mas sou mulHer, agá maiúsculo.
Este texto faz parte do exercício criativo - Mulher zangada
.
sábado, 23 de outubro de 2010
A quoi ça sert l'amour?*
( mini máximas desiludidas)
I - as vivências de amor
daquele sujeito
dariam dois versos
quando muito, poemeto
.
II - pra tudo é preciso limite:
beijo demais dá queilite
engolir sapo, gastrite
sexo sem freio, uretrite
paixão demais é dinamite
amor pra sempre, só Afrodite
.
III - Prometo que vou amá-la
como Jung amou a mandala:
certo dia bateu o tédio
e ele a deixou...
que remédio
.
V - quando penso
"agora sai"
o amor esvai
e o hai
k
a
a
. i
.
* Pra que serve o amor? , título de uma canção de Edith Piaf.
No link, numa animação adorável de Louis Clichy, dueto poderoso da canção por Edith Piaf e Theo Sarapo
.
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
sufoco
criação e produção: Felipe Passantino
nasodrama
se acaso um dia
em hora sombria
o ar me faltar
aviso desde já:
é o ocaso
( bem no prazo )
é o ocaso
( bem no prazo )
.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Trama
orvalho em teia de aranha ( autoria da foto desconhecida)
"amor, então,
também acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima"
Paulo Leminski
amor sem rega
enruga
roto, arruina:
primeiro dá raiva,
enruga
roto, arruina:
primeiro dá raiva,
amarga,
gente sai da rota,
gente sai da rota,
rema contra amar é
aí um dia gente
toma prumo
e proclama
que drama
virou insumo
de novo rumo
pra lida
arremato:
na poesia da vida
toda lágrima
é rima
sem brida
.
.
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Leminski: o poeta que uniu ocidente e oriente
“essa idéia
ninguém me tira:
matéria é mentira”
Samurai malandro, caipira cabotino, pensador selvagem, bandido que sabia latim, guerreiro da palavra, caboclo-monge-zen-black-beat. Tudo ao mesmo tempo. Este é o perfil múltiplo do escritor Paulo Leminski. Nascido em Curitiba em 24/08/44, filho de um sargento do exército descendente de poloneses e de uma dona de casa negra, Leminski viveu pela poesia e para a poesia. Só não conseguiu viver dela: além de poeta e romancista, foi tradutor ( inglês, espanhol e japonês), professor ( judô, redação e história), jornalista, publicitário, ensaísta e compositor da MPB. “Para ser poeta, é preciso ser mais que poeta”.
Após uma vida meteórica e anárquica, vivida com a intensidade de um samurai zen-budista, faleceu aos 44 anos, em 07/06/1989, por complicações do alcoolismo. Era um boêmio assumido: “Pariso, novayorkizo, moscovito, sem sair do bar/. Só não levanto e vou embora/ porque tem países/ que eu nem chego a madagascar”.
“Amor também acaba? Não que eu saiba. O que sei é que se transforma numa matéria-prima que a vida se encarrega de transformar em raiva. Ou em rima”. O poeta amou com uma intensidade que rivalizava com a urgência da produção que propôs para si: casou-se aos 17 anos com a artista plástica Neiva Souza. Sete anos mais tarde, separou-se para unir à poetisa Alice Ruiz, com quem teve duas filhas, num relacionamento conturbado de 20 anos de duração. De Alice : “em casamento de poetas, a poesia é o maior dos bens em comum.”
“Acordei bemol, tudo estava sustenido. Sol fazia. Só não fazia sentido”. Foi no Mosteiro São Bento em São Paulo ( para onde foi aos 13 anos e de onde foi expulso 2 anos depois por indisciplina), que ele aprendeu canto gregoriano, sua única formação musical. Ao todo, são 50 composições solo ou em parceria de músicos como Moraes Moreira, Itamar Assumpção, Arnaldo Antunes, Caetano Veloso e Paulinho Boca de Cantor.
“O bicho alfabeto tem 23 patas ou quase. Por onde ele passa, nascem palavras ou frases”. Leminski surgiu para a literatura na década de 60. São 18 títulos entre livros de ensaios, romances, biografias e poemas, além de 8 volumes de tradução. Do concretismo, soube extrair a valorização e persuasão pela palavra. Da contracultura, o humor e questionamento às mistificações. Sobre ele escreveu o poeta Haroldo de Campos, em 1963: “... Rimbaud curitibano com físico de judoca, escandindo versos homéricos, como se fosse Bashô...”. Bashô, poeta-samurai japonês, o Pai dos Haikais, inspirou Leminski, que estudou, praticou e ajudou a disseminar a forma poética no Brasil. Seu interesse pelo oriente não se limitou a haikais: faixa preta de judô, praticante da filosofia zen, também se aventurou nos koans ( anedotas-paradoxo japonesas), perpassados com fino humor. “Vai vir o dia, quando tudo que eu diga seja poesia”. Seus versos inteligentes e repletos de armadilhas verbais são líricos, sensuais e irônicos. Além dos poemas breves e haikais, há também prosa, infanto-juvenis, roteiros de cinema, ensaios. Há ainda quatro biografias reunidas no livro Vida: do poeta negro catarinense Cruz e Souza, Bashô, Jesus Cristo e do revolucionário Trotski.
“Haja hoje para tanto ontem”. A obra do poeta de vanguarda curitibano continua despertando a atenção de escritores, estudiosos, diretores de teatro e cinema e tradutores. Millôr Fernandes disse certa vez em analogia à tecnologia de ponta, que há seres humanos de ponta. Na literatura brasileira do século XX Paulo Leminski certamente é um deles.
“Tudo dito, nada feito, fito e deito”.
* Dados biográficos extraídos de “O bandido que sabia latim”, de Toninho Martins Vaz – Editora Record, 2001, 380 páginas.
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