sábado, 7 de março de 2009

Tentação

Teresa não-me-toques
torce o terço:
tanto tato, tanto tino,
tanta trava...

ô tristeza!

Tire o atraso, Tetê
tempo é tudo
destempere, atreva,
tropece
Se toque.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Palavratrix 1

1. QUANDO O AMOR SE VAI
ex
terna
mente

2. RUTILANTE
de
cor
ativa

3. EXPIAÇÃO
a
va
reza

4. QUER SABER? CANSEI!
amo
ti
nada

5. HARAQUIRI MÉDIO ORIENTAL
Ali
en
ação

6. TRATAMENTO CAPILAR
quer
a
tina

7. EXTRA! EXTRA!
ex
trava
sado

8. AUTORITARISMO
com
pulso
rio

9. BAITA ADMIRAÇÃO
ti
e
te

10. JUSTIÇA MINEIRA
pro
'ces
so

quinta-feira, 5 de março de 2009

Sequela

consequencia tinha trema
quando ele se foi sequioso
tremi
na sequencia
sigo só
ô sequidão

Dor de cotovelo

Enquanto alguns só têm olhos para o próprio umbigo, perco-me em reflexões com meus cotovelos. Literalmente. Fico imaginando de onde Deus tirou a idéia. Apêndice serve para cirurgião treinar a técnica. Calcanhar mostrou a que veio no gol de Sócrates na Copa de 82. Ajoelhou, tem que rezar. Cotovelo já começa mal pelo nome – e cúbito, o termo técnico, não melhora muito a coisa.

Cotovelos sempre foram meu tendão de Aquiles. Nas lembranças da infância, eles se acotovelam em ensinamentos maternos: “Tire os cotovelos da mesa”, “Só se coça os ouvidos com o cotovelo”, “Não se pode apagar com o cotovelo o que se escreveu com a mão”. Por causa deles, nunca obtive uma aprovação plena pós banho: quem acha que lavar cotovelos é fácil está mais por fora que cotovelo de caminhoneiro.

Na adolescência, cismei que os meus precisavam ser macios – e dá-lhes hidratante e almofadinha de apoio na hora do estudo! Grande bobagem. Gosto é que nem cotovelo, cada um tem o seu, mas nunca conheci alguém que tivesse fetiche por eles. Quem já ouviu falar do cotovelo de Helena, cuja beleza destruiu Tróia? Ou dos cotovelos da Sharon Stone? Vênus de Milo nem os tinha. Ainda assim, por causa de um cotovelo quebrado curti a primeira dor-de-cotovelo: não joguei a final do torneio interescolar de handball e as meninas do Estadual Central, por quem todos os garotos da minha escola eram fascinados, levaram o ouro. Não que eu fosse boa jogadora, mas mordi os cotovelos de inveja. E nunca os perdoei pela traição. Não foi difícil: até hoje, quando o tempo esfria, o tal cotovelo quebrado me faz sofrer.

Só quem experimentou, na pele, os transtornos psíquicos que uma pontiaguda dor-de-cotovelo provoca - e chorou por alguém perdido em algum cotovelo do mundo - sabe como dói fundo na alma. A gente faz cada coisa irracional que parece que o cérebro foi parar no cotovelo. Haja bar, lenço de papel e música de fossa cubital. E dor de cotovelo crônica só cai bem nos versos melancólicos do poeta. Tem gente que fala pelos cotovelos e sai emendando um assunto no outro - nessa hora, o cotovelo do ouvinte incauto serve para apoiar a cabeça exausta, que finge interesse. Cotovelos e parapeitos de janelas são insuficientes para os que gostam de discorrer sobre a integridade moral dos passantes – dá vontade de falar: "Ora, vá cuidar dos cotovelos!"

Cotovelos são armas de torque poderoso como um martelo. Criam calos. Esfolam. Dão choque. Dão banana em gesto de ofensa. Puem a manga dos casacos. Servem para motoqueiro pendurar capacete e consumistas, sacolas. Acotovelam-se em centros comerciais às vésperas de datas festivas. Proliferam, exponencialmente, em dias chuvosos. Em suma, são perfeitamente dispensáveis.

Há uns dois meses, quando voltei a praticar tênis, após 15 anos afastada do esporte, passei a sentir uma dor articular renitente e progressiva. Hoje, no ortopedista, recebi o diagnóstico: cotovelo-de-tenista, doença em que há esgarçamento da articulação e cujo tratamento é antiinflamatório e repouso.

Além de terem vida exterior autônoma ( para os tímidos como eu, em situações de desconforto social sempre sobram cotovelos), os meus também têm vida interior e agora decidiram que precisam descansar.

Cotovelos abraçam, é verdade, mas um abraço compensa tanta chateação?