quinta-feira, 30 de setembro de 2010

indicativo

.
eu fala
tu falo
nós falhamos

.

bipolar


de noite na cama
como o diabo gosta
ele me adentra sem cerimônia
ri e diz que é muito feliz

de dia ele reclama, me chama
 ( o santo do pau oco encosta ) 
e diz que vai pra babilônia
à cata da grande meretriz

.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Para enrolar a língua

( da Malu e da Martina )



Na moda

Já que tinha que comprar
Trouxe logo a jaquetinha
E cinto pra combinar
Com a minha sandalinha.

* - * - * - * - * - * -

Portuguesa, com certeza

Camões cantou “alma minha”
E a crítica quer saber
Se Camões comeu maminha
Ou versou sem perceber.


* - * - * - * - * - * - * -

Era uma vez

É bigoduda, safada
Essa fada da estória!
É a bruxa disfarçada
Se não me falha a memória.

* - * - * - * - * - * - * -

Seu garçon, faz o favor

Vez passada quis um sapo
Hoje quero vespa assada
Traga água, guardanapo
E lagartixa grelhada.

* - * - * - * - * -

Tá na hora

Menina, vá já pra cama!
Você sabe que horas são?
Dê-me um beijo, não reclama
Não esqueça a oração.

- * - * - * - * - * -

Brincadeira

Quis saber se ela tinha
Um brinco de diamante
Ela tem, mas é latinha
Que latinha mais brilhante!

* - * - * - * - * - * - * -

Lavadeiras

Já que uma mão a outra lava,
Quem vai lavar o mamão?
“ Eu não sei”, ela falava
“ Ora, vá lamber sabão”.

- * - * - * - * - * - * - *

No Éden

Eva e Adão namoravam
Carinho, beijo na mão
Os bichos atormentavam:
“Lá vai Eva e eu vi Adão”.


terça-feira, 28 de setembro de 2010

Variantes capitais

 
O AVARO

Escreveu no livro-caixa.
Fez seu pé de meia.
Teve um filho da puta.

* * * * * * *

O HEDONISTA

Praticou o kama sutra.
Plantou uma árvore de sonhos.
Teve um filho - pródigo.

* * * * * * *

O PREGUIÇOSO

Escreveu um bilhete.
Contratou uma barriga de aluguel.
Colheu o que plantou.

* * * * * * *

O IRADO

Escreveu um manifesto.
Plantou pés-de-guerra.
Semeados ventos, teve filhos da tempestade.

* * * * * * *

À SUA IMAGEM E SEMELHANÇA

Escreveu a Tábua de Mandamentos.
Plantou a Árvore da Vida.
Teve o filho - do Pai.
( e o bom filho a casa torra)

.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Ao pé do ouvido

CLASSIFICADOS REDUNDANTES


Conclusão final


A viúva do falecido
troca pêsame sentido
por rico e bom partido
* - * - * - * - * - * -

Quem concorda, consente

Troca-se propaganda enganosa
por falso pre_texto
de aventura venturosa.

* - * - * - * - * - *

Metades iguais

Troco certeza absoluta
por abertura inaugural
a meu critério pessoal.

* - * - * - * - * - * -
Pequeno detalhe

Troco minha autobiografia
por autógrafo seu
em boa caligrafia.

* - * - * - * - * - *

Consenso geral

Trocar planos futuros
por versão definitiva, última:
que novidade inédita!

* - * - * - * - * - *

Opção de escolha

Não troco nada
pelo que sinto por você.
É cego ou não pode ver?

* - * - * - * - * - *

sábado, 25 de setembro de 2010

O dito pelo não dito



1. Deus enruga quem madruga.

2. Na night, os mais gatos são parvos.

3. Nem tudo que reluz seduz.

4. Quem vê cara, não pega coroa.

5. Antes só do que pó.

6. Aqui se faz, aqui se apaga.

7. Quem semeia ventos é O Mago.

8. Deus dá asas. E cobra.

9. Filho de peixes pode ser Leão.

10. Não há pior inimigo do que ex traído.

11. Quem espera quase sempre desespera.

12. Quem foi rei, xeque-mate.


"Toda boate tem um fundo de verdade" ( Beat da beata - Ana Carolina)


.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Dois tempos

Toque feminino

Era daquelas meninas criadas por avó, cheia de não-me-toques.
Quando cresceu, ela finalmente se tocou.
Ainda bem.




Navalha na carne

Era um motorista barbeiro e nervoso.
Um dia, após mais uma navalhada no trânsito, envolveu-se em calorosa discussão.
Engraçado foi que quem puxou a navalha foi o motoqueiro.
A barbearia fechou por três dias em sinal de luto.

.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Por força da natureza

 "Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania,
depende de quando e como você me vê passar."
( Clarice Lispector)


"de onde nem tempo e nem espaço, que a força mãe dê coragem
pra gente te dar carinho, durante toda a viagem
que realizas do nada,através do qual carregas
o nome da tua carne : Terra" (Caetano Veloso)






VELHA SENHORA

Já foi fogo puro. Esfriou, devagar.
Das profundezas emergiu, oceânica.
Blocos, fundidos, com o tempo se individualizaram.
Hoje são cinco, contin(g)entes.
O por_vir, só Deus sabe.

* - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * -

TREMORES


Apesar da aparência sólida, sua crosta é toda recortada.
Instável como placa tectônica.
Por isso ela treme. De gozo e dor.


* - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * -

MOINHOS DE VENTO

Seu sopro às vezes é leve como a brisa de Clarice.
Em outras, Hilda é furacão: carrega o que encontra pela frente.
Eólica. Turbinada.

* - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * -

QUANDO ELA COSPE FOGO

Plácida superfície, interior em contínua ebulição.
Quando não se aguenta mais, dá vazão - lavas ígneas, pétreas.
Depois tudo volta ao que era antes.

* - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * -

ENERGIA PURA

O belo halo luminoso pode se transformar em espetáculo de violentas descargas elétricas.
Mortais em fração de segundo.


.
.

domingo, 19 de setembro de 2010

língua de trapo


o ponto fraco:
falta-me pinto
mas tenho peito
e não me oprimo
.
tive partos, gesto pactos
pago e reparto o pato
lavo pratos, cirzo trapos, não importo
ma non troppo
levo pito, represo o pranto
despisto
.
sempre pronta,
disposta
toda prosa

o ponto forte
eu já te conto
está na ponta
- da língua

.

sábado, 18 de setembro de 2010

Entre quatro paredes


Quando namorou o matemático, teve orgasmos múltiplos... de quatro.
Com o iogue o sexo era, tipo assim, tântrico.
O pintor seria o grande amor da sua vida, não fossem as brochadas.
Está com um analista de sistemas, mas anda desanimada que só vendo.
É que ele prefere ao ponto G o ponto com.

.

Entre tapas e beijos


Rir faz bem. Pensar também. Quando dá para fazer as duas coisas ao mesmo tempo, é melhor ainda. Para isso, a gente lança mão das histórias. Algumas, as fábulas da vida real , são criadas a partir de uma observação cotidiana. Em outras, carrega-se um pouco nas tintas do exagero para narrar um fato real. Raras histórias já chegam prontas. Quem me contou a de hoje foi o sargento Moraes, policial militar aposentado, anjo sobre rodas que costuma trazer minhas filhas para casa depois da balada.


Tão logo a viatura parou, os dois saíram correndo na direção dos militares:


- Foi ele quem começou.

- Não começa, Maria Alice. Foi ela, sargento.

- Grosso! King Kong!

- Grossa! Chita!

- Acalmem-se os dois, pra gente entender o que está acontecendo.

- Olha meu braço. Ele me agrediu, o covarde.

- Ela me bateu primeiro, a dissimulada.

- Ele atirou duas panelas em mim, sargento.

- Pena que eu errei a primeira...

Os dois militares tiveram que pedir calma, agora com menos calma.

- Um de cada vez. Temos que ouvir as duas versões.

- Que duas versões? Só tem a minha versão, a da vítima.

- A vítima sou eu, ora... Se acreditar nele, eu vou achar que vocês são farinha do mesmo saco. Homem sempre defende homem, que eu sei.

- Temos que ouvir os dois. Tá no Código de Conduta. Primeiro fala quem fez a denúncia no 190.

- .....

- ....

- Qual dos dois é Ivanir? A Central informou que Ivanir fez a denúncia.

- Ivanir é a vizinha do outro lado da rua ...

- Mas que falta do que fazer da Dona Ivanir, hein?! Metendo o bedelho na vida dos outros... Devia era olhar aqueles meninos dela, cada olhão vidrado...

- Em vez de ficar intrometendo na vida da gente, vocês deviam autuar ela... Imagina incomodar a polícia por bobagem...

- A gente vai registrar queixa contra ela, isso sim!

- E a polícia, boba, cai na conversa de quem não tem o que fazer... Não sei quem é pior...

- Já que estão insatisfeitos, é melhor continuar essa história na delegacia.

- Opa, isso não! Ninguém vai levar minha mulher pra delegacia. Só por cima do meu cadáver.

- Que lindo, amor! Também só deixo levarem você no dia de São Nuncas.

- Em vez de ficar empatando a nossa vida, vocês deviam estar na rua prendendo bandido, isso sim.

- Vamos entrar, meu amor, deixa eles pra lá. Ta começando a chover, você pode ficar gripado. Vou te fazer um chá de limão quente, vem.



Pergunta se o casal convidou os policiais para o chá. Pergunta se Ivanir deu as caras para oferecer, pelo menos, um cafezinho. Claro que não: ela sabe, sargento Moraes, que em briga de marido e mulher não se mete a colher...

A gente demora, mas um dia aprende.

.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

mundão véio sem portera

“ Coisa que não acaba no mundo é gente besta
e pau seco. Etc, etc, etc
Maior que o infinito é a encomenda.”
Manoel de Barros


coisa que não acaba no mundo
é gente besta, metida a prosa
é cacto travestido de rosa
é mente rasa, que posa de funda
é vivo de alma moribunda

coisa que não acaba no mundo
é coisa que acaba com o mundo

maior que o infinito, poeta
só o amor
.
maior que a encomenda

.





terça-feira, 14 de setembro de 2010

É agora, Maria




e agora, Maria?
não tem mais José
nem teogonia
rompeu-se o anel
 da monogamia
e as luas de fel
 de parca alegria
( pois é, quem diria...)
.
você que é tantas
tão cheia de graça,
agarre-se ao tantra
a vida é trapaça
qual queima de estoque
das casas Bahia
avance, tropece
(trespasse, vadia)

sozinha no escuro,
supere, só_ria
a palavra é prata,
silêncio, de ouro,
a lavra te cobre
( te resta a poesia)

bendita Maria
 que um raio a parta
conceda alforria
declare-se farta:
liberte-se
(ainda que tardia)
.
É agora, Maria.


.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Foi bom pra você, meu bem


Tem coisas que só deve perguntar quem está psicologicamente preparado para ouvir verdades. Não a nossa verdade ou o que gostaríamos que fosse verdade, mas a verdade do outro. Aconteceu com aqueles dois, casadíssimos. Desde o século passado. Manhã de sábado e ele cisma de perguntar:


- Foi bom pra você, meu bem?

- ???

- Não se faça de desentendida! Quanto, de 1 a 10?

- Ah, isso... Dorme mais um pouco, amor. É cedo ainda.

- Não enrola: bom ou ruim?

- Hum... médio...

- ?

-  Não fica bravo, vai... É que antes era... diferente.

- Diferente? Diferente como?!

- Não estou queixando, querido, mas no início era mais gostoso.

- Desenvolve!

- Depois a coisa diminuiu de tamanho, esfriou e ....

- Chega, já entendi... Cadê o controle remoto dessa droga de TV?

- Tem dias que só de pensar em encarar o dito cujo, bate uma preguiça... Não faz essa cara, meu anjo...

- Já te pedi mil vezes pra não me chamar de meu anjo! Anjo não tem sexo, não avacalha... Pôxa!

- Desculpa. Amorzão. Tem dias que eu fico gelada. Aí, faço bem rapidinho para acabar logo.

- ...

- Mas eu andei pesquisando por aí e acho que tem solução.

- PESQUISANDO POR AÍ?

- Não grita, senão as meninas acordam. Você precisa ver o folder: fotos incríveis!

- Você viu fotos???

-  Hum-hum... E fiquei imaginando se você toparia...

- .... ?!

- A gente precisa encarar, querido. Com o tempo, as coisas já não funcionam tão bem, é assim mesmo. Lei do Uso e do Desuso. Sinal de que foi muito bem usado, né?

 - ...

- Minha colega falou que o efeito é sensacional. Tem uma ...

- Você discutiu isso com suas colegas sem falar nada comigo?!

- Só com a Bel. O Marcelo também teve que trocar. Foi ela que me deu o folder. Tem uma válvula que dá mais pressão na hora de...

- Sou uma besta mesmo. Mas até uma besta passaria por inteligente se ficasse calado... Sou uma besta ao quadrado, é isso!

- Que bobagem, meu amor. Não tem nada demais...

- Porque não é com você! Fico imaginando o incômodo, o trabalhão... E como é que faz, você sabe?

Ela não sabia, mas deu um jeito de descobrir. E convenceu o marido a trocar o chuveiro jurássico por uma ducha moderníssima, sistema de vazão total, cano extra forte, trezentos jatos expandidos de alta performance, doze opções de temperatura...

Bom pra ele. Bom pra ela.


.

domingo, 12 de setembro de 2010

fantasia



tá bom, desisto

a busca pela verdade,
ampla e irrestrita liberdade
me são inalcançáveis

tal qual o George Clooney
.
revelo-me na adversidade
insisto

.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

do firmamento ao chão


a história é repetida
pra um dia de chegada
há outro de partida

(dis)traída pisava nos astros
sem saber
grande bandeira*
que (pai)chão
aventurava na vida
nova cabrocha, novo l(u)ar
mesmo vi(o)lão


* Para Manuel Bandeira, o verso "tu pisavas nos astros distraída" é o mais belo da MPB

.

Abissais

Sete Faces


Bem lá no fundo,
Drummond queria
ser Raimundo

* - * - * - * - * - * - * -

O Garoto

Adorável Carlitos:
bem lá no fundo,
Chaplin, o vagabundo

* - * - * - * - * - * - * -

Machado sem cabo

Bem lá no fundo
se não nado
afundo

* - * - * - * - * - * - * -

Limbo

Bem lá no fundo
do mundo
fica o submundo

* - * - * - * - * - * - * -

Vai fundo

Quando procuro
bem lá no fundo
aprofundo

* - * - * - * - * - * - * -

Outra vez, de novo

No fundo
bem lá no fundo
Redundo

* - * - * - * - * - * - * -

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

a bico de pena



Pena que a carne é fraca
               o cerne, franco
               e a vida passa
               pra dama do Paço

                ela é uma graça,
                ele, um grosso
                quando ele a canta,
                perde o encanto

               os anos passam
               e a pança cresce
               a bossa se vai
               e fica o boçal

               a pena é leve
              e o vento a leva
              a duras penas

Pena que a prosa venceu o prazo
a poesia perdeu as rimas
faltou melodia - que dia!

apenas... que fossa!

.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Filosofia didática



Há frases que se iluminam pelo opaco: ª*
O esplendor da manhã não se abre com faca º*
A força excessiva faz do homem um fraco
Vive melhor quem seus medos aplaca.

Se quer ir pra lua, não cave buraco
Quem não tem razão, chuta o pau da barraca
Há frases que se iluminam pelo opaco
O esplendor da manhã não se abre com faca.

Todos, um dia, abotoam o casaco
Quem sabe de um tudo, em nada destaca
Quem não pode beber, não venera Baco
Noivo caramujo não veste casaca

Há frases que se iluminam pelo opaco.


* dois versos adaptados do poema “Uma didática da invenção”, de Manoel de Barros:
ª estrofe XVI, verso 6
b estrofe I, verso 2

.

A música brasileira na ditadura militar



“ Você corta um verso, eu escrevo outro
Você me prende vivo, eu escapo morto”
Pesadelo – M. Tapajós e Paulo C. Pinheiro





                            Alguns são saudosos do regime militar. É bom reavivar a memória: entre 1964 e 1985, o país sofreu censura ampla, geral e irrestrita. Nada escapava da ceifa dos censores. O clássico da literatura O Vermelho e o Negro, de Stendhal, foi proibido por causa do “vermelho” do título. Na novela Escrava Isaura, não se podia usar a palavra escravo. A polícia saiu às ruas à procura do autor de Electra, a mando de militares chocados com a violência da peça teatral. Naturalmente, não encontraram o grego Sófocles, morto 20 séculos antes.

                         Para calar a voz da nação, por ocasião do golpe militar de 64, improvisou-se uma equipe formada por esposas de militares, ex jogadores de futebol e funcionários públicos desviados de função. Despreparados e apoiados pela TFP e Igreja, os cães de guarda da moral eram implacáveis com quem destoasse dos valores ultramoralistas, antidemocráticos e anticomunistas do regime. Mais tarde, entre 74 e 85, concursos públicos para censores exigiram nível universitário. Os novos censores eruditos e bem informados continuaram tomando decisões pessoais. Além dos critérios de corte serem pouco claros, faltava diálogo entre os diferentes órgãos de repressão e sobrava arbitrariedade. Aldir Blanc conta que viu um general, aos gritos, ordenar a morte de Ney Matogrosso, pois o neto não parava de imitar seu rebolado. Paulo Coelho ficou preso por um mês por trajar camisa da seleção de futebol do Paraguai, o que um delegado julgou insultoso. Mais casos curiosos podem ser conferidos no ótimo site www. censuramusical.com.br.

                        Pela lógica da repressão, vigiar a cena musical garantia a desmobilização política da sociedade. Para os militares, artistas da MPB, inteligência de esquerda, movimentos operário e estudantil conspiravam para desestabilizar o regime. Os artistas lutavam pelo direito de sobrevivência no mercado de trabalho. Foi um período de grande efervescência cultural e política, onde a chamada música de protesto floresceu e se tornou a grande trincheira de resistência ao autoritarismo.

                        Entre 66 e 72, os festivais da canção fomentaram o protesto pacífico. A MPB driblava a censura com letras repletas de metáforas. Chico Buarque, contra a própria vontade alçado ao posto de bardo opositor, teve 40 músicas vetadas, a metade por razões políticas. Abusando do duplo sentido, são dele “Cálice” e “A Rita”, composta um ano após o golpe da Dita(dura), que, “além de tudo, me deixou mudo o violão”. Em “Acorda Amor”, canção onde diz ter menos medo do ladrão do que dos militares, burlou censores com o pseudônimo de Julinho da Adelaide. Com o endurecimento do regime, Chico espontaneamente exilou-se na Itália. Menos sorte teve Geraldo Vandré, o irado compositor de “Pra não dizer que não falei das flores”: lenda viva, após o exílio no Chile desagregou-se como pessoa pública. Em 89 inexplicavelmente compôs “Fabiana”, uma homenagem à FAB.

                      A maioria das letras, no entanto, era vetada por questões morais. Para preservar a imagem de nação com rígida moral cristã, a censura policiava a anti-metáfora da música de protesto, a música simples e direta do povo. Odair José, o terror das empregadas, foi perseguido por versos que feriam a hipocrisia puritana. Teve “A Pílula” censurada por pressão da Igreja. Luis Ayrão, cantor brega mas engajado, compôs no 13o. aniversário do golpe “ há 13 anos que te aturo e não agüento mais”, à qual deu o título de “Divórcio”. A censura não percebeu.

                   Nos versos da canção, amordaçava-se o canto de um povo, num clima de paranóia. “Tortura de Amor”, de Waldick Soriano, foi vetada por causa da palavra tortura. A censura à “Curvas da Marquesa de Santos”, de Luís Nassif, justificava : personagem histórica não podia ter curvas. Em “Casa Forte”, de Edu Lobo, faltou letra e a música foi proibida. “Pra não dizer que não falei das flores” e “Disparada” foram vetadas na voz do autor, mas Jair Rodrigues podia cantá-las. Ter ou não a obra liberada era, nas palavras de Chico Buarque, roleta russa. “Apesar de você”, crítica à ditadura disfarçada em querela amorosa já tinha vendido 100.000 compactos quando foi censurada. Em “Bolsa de Amores”, Chico comparava uma garota às ações da bolsa de valores “ moça fria, ordinária, ao portador”. Teve que trocar o “ao portador” por “sem valor”. Em “Trocando em Miúdos” aplacou censores acrescentando “e nunca leu” ao “devolva o Neruda que você me tomou”.

                   Aquele foi também um período de patrulha ideológica interna. Em 72, Wilson Simonal desentendeu-se com seu procurador. Para vingar-se, o advogado espalhou que o cantor delatava colegas para o regime militar. Foi o suficiente para levá-lo ao ostracismo. Faleceu, em 2000, antes de ver seu nome absolvido pela Comissão de Direitos Humanos da OAB. Caetano Veloso, por seu estilo independente, era taxado de subversivo pelos militares, e de “entreguista Odara” pelos colegas engajados.

                  Alguns artistas aderiram ao regime da “potência de amor e paz”. Don e Ravel assinaram a marchinha “Eu te amo, meu Brasil”. Jorge Ben compôs “País Tropical” e “Brasil” e Zé Kéti foi autor do hino do sesquicentário da independência

                  O começo do fim da longa e tenebrosa nevasca cultural foi 1979. O recém criado Conselho Superior de Censura abrandava a atuação repressiva. Num tempo, página infeliz da nossa história, passagem desbotada na memória das nossas novas gerações, Chico e Francis Hime compuseram o samba “Vai Passar”, hino da Campanha das Diretas. Em 88 o ciclo se fechou com a promulgação da nova constituição. O grito de guerra do início da ditadura militar, de João do Vale – “Carcará pega, mata e come” – enfim silenciava. Era o fim do regime do “Pisa na fulô, mas não maltrata o carcará”. Que ele descanse em paz, sem direito à ressurreição ou à vida eterna
 
.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

cantilena



cida 'cordou carente
choramingou no chuveiro,
coou chafé,
cuspiu cicuta
cadê chico?
cretino, cínico

capitulou, conformada:
(mais um) caso consumado
chafurdou em cachaça com crush 
cansada do celibato crônico

ô cruz, credo...

a_corda, cida

.