sábado, 30 de abril de 2011

alma de passarinho




viver é suave
grave é voar
feito ave

*
como andorinha,
corrupio, arrepio
e vivo por um fio

*
não choro por pena
é esse sol a pino
se pondo
 nos meus olhos, apenas

*
no ar, como urubu inquieto
rodo em círculos,
à espera de teto
pra pousar
só não sei voar

**
não gosto de famintos gatos
 a gente cai como p(r)atos
no fim é pena pra todo lado
( prefiro os bem apanhados)

*

sexta-feira, 29 de abril de 2011

poeminha amoroso



queria um verso romântico
que cruzasse pacífico, o Atlântico
queria um poema semântico
que se deixasse ler como cântico

queria uma prosa sincera
que te encontrasse aflito, à espera
queria ser incomum, num repente
mas falta inspiração - tô carente
.
quer ir ao cinema comigo
assistir a um filme bem antigo
talvez passar a tarde numa livraria
tomar um capucino na cafeteria

quer saber minha canção favorita,
apontar locais por onde você transita
quem sabe admirar a noite estrelada
falar da vida até nascer a alvorada

ou apenas sentar no sofá
deitar a cabeça no meu colo
me deixar te fazer cafuné
di_vagar, dormir, sonhar
gosto de ti,  desatolo
pois é.....

.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

melhor que aspirina




te beijo toda, te deito no chão
e arranho nas suas costas
rimas de amor descompostas

sussuro um palavrão
pra te deixar saradona:
diimetilaminofenildimetilpirazolona*



* substância ativa de vários medicamentos para dor de cabeça
.

vício de amar




quando tragas
o que te trago
teu vício, draga
o meu estraga

.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

a noiva do cowboy





ah, o anel que tu me deste
ao estilo do velho oeste
com ele rompi fronteiras
mandei bala, pioneira

hoje, sem bala na agulha
e um buraco no peito
daquele amor nem fagulha:
vidro quebrado é sem jeito

foi-se cowboy e cavalo,
parto só num trem bala
sem adeus... aliás, moço
aceita uma bala de troco?

.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Caso a caso

" O acaso vai me proteger
enquanto eu andar distraído"
Epitáfio, Sérgio Britto







imemoriável
O acaso inventa poesia desde que a vida é vida.
Por acaso desconfio
que essa mania seja muito, muito mais antiga.
Desde que o nada é nada
Desde o acaso infinito


Márcio Ares, abril/2011
 
   
até o ocaso
do infinito não sei os azos
só sei que o acaso
casa Vida e Poesia,
causa desordem,
concede e cassa 
sem descanso nem descaso
  cada coisa a seu prazo
 
Maria Paula Alvim, abril/2011

.

sexo frágil é o caralho *




que mulher jamais aturou
reclamação de chefe mal humorado,
cantada de bêbado atormentado,
bronca de motorista mal educado
ou ciúme doentio de um namorado?

que mulher nunca sentiu dor
do bife tirado da cutícula,
de cotovelo, parto mental,
por ter feito papel de ridícula
ou pelo fim do caso virtual?

que mulher jamais ocultou
lágrimas de felicidade,
a sua verdadeira idade,
excesso de adiposidade
ou passar fome por vaidade?

que mulher nunca teve que dar jeito
numa meia desfiada,
numa amiga bandida,
numa relação falida
ou numa unha lascada?

que mulher jamais se culpou
pelo filhinho na escola menosprezado,
pela atitude do namorado safado,
por não ter ficado com o bico calado,
por bisbilhotar o celular do amado?

que mulher nunca
quis vir monge na próxima encarnação,
nem clamou estar farta de chateação
lá no fundo, pronta pro que der e vier
sente orgulho por saber ser Mulher
.


* frase pichada no centro de BH, segundo testemunho do amigo Fouad Talal


segunda-feira, 25 de abril de 2011

chorinho insistente





se você fosse louco por mim
me desejasse ao cubo ao infinito
te faria dengo, carinhos sem fim
pra deixar nosso amor bem bonito

eu inventaria uma nova linguagem
criaria coragem e só faria bobagem
se fosse louco por mim, meu bem
seríamos edição de limitada tiragem

se você fosse louco por mim
eu transporia mares, ares e terra
pra escrever uma história de folhetim
dois num só lado do cabo-de-guerra

te embriagaria de tanto amor
te faria sentir arrepios, frio, calor
declamaria poemas em seu louvor
aplacaria seus medos com bom humor

se você fosse louco por mim
bailaríamos em permanente festa
em seus braços me perderia, enfim
aproveitando o tempo que resta

ai, que duro é viver a triste incerteza
perco a fome, não durmo, emborco em gim
tentando achar explicação, a natureza
pra você não ser louco por mim

sei que você não é louco por mim,
pena você não ser louco por mim...
mas ainda que mal lhe pergunte :
por que você não é louco por mim?


diálogo com a crônica “Chorinho para a amiga” de Vinicius de Moraes
imagem: tela Chorinho, de Cândido Portinari
.

sábado, 23 de abril de 2011

23/04 - Valei-me São Jorge




Ah, quem me dera não fosses casada
Com tão hostil, ríspido arruaceiro
Eu enfrentaria íngreme escalada
E - milagre! - me terias inteiro

Dar-te-ia a mais fulgorosa estrela,
Clamaria versos para enlevá-la,
Fuzilaria os outros só pra tê-la
E sentir o olor que teu lume exala

Jamais em ti eu pisaria atroz
Nem soltaria chamas pelas ventas
Seria um vulcão dentro de nós
De derreter até massas cinzentas

Nova, te encheria com meu ardor
Num resplendor de beleza crescente
Prenhe, minguar-te-ia acolhedor
À míngua, começarias novamente...

Quando viesses nua, qual clarão
Amada, não fartaria de olhar...
Lua, se te separares do dragão,
São Jorge deixa a gente namorar?
.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Desde quando

( por Márcio Ares da Silva)




Desde que eu sofro o mal do coração partido
apago luzes que não ficaram
esqueço a senha bancária
atropelo os degraus da escada
quebro a cabeça no portal de entrada
ligo o rádio que já está ligado
e finjo dor quando sou alegria


Desde que eu amo o sal da paixão esquecida
acho sem graça o riso mais bonito
não me comove a história com final feliz
não sei a estrada por onde segue a vida
faço piada com a falta de graça
peco em silêncio pra rezar no escuro
bebo cachaça se não tem bagulho
escolho atalhos pra ser infeliz


Desde que eu sofro o amor é mais triste.
 
                                                                      Márcio Ares da Silva abril/2011
                                                                      http://www.marcioares.blogspot.com/

.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

águas de abril

            " É pau, é pedra, é o fim do caminho" Tom Jobim


minha alma não é
de pedra polida
lascada, fu(n)dida
 quebra pedra, crack
.
vez por outra chovo maria
se lágrimas fossem pedras
 ainda assim,
 as verteria
.
por vezes granizo
 derreto 
  viver é drury's
 em_pedra
 .  
meu abandono tem dono
não é tocha,
 não é rocha
é alma de pau_la
.



quaresma



A perua
dança com lobos
uiva pra lua

 jejua
.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

vai-e-vem-vai-e-vem


( por Márcio Ares Silva)



Penso um poema e ele vai embora.
Algum mar distante naufraga meu invento, embarcação de muitas rotas.
O que tenho à mão é essa coisa de dentro
que tanto dói cá fora
a idade das almas, a dor da minha gente,
saber efêmero o entendimento dos olhos

Traduzindo o que se é visto, eu escrevo as horas.
Tomo o leme do meu barco e o conduzo para além do que me devora.
Um monstro de versos tristes, e dissonante fome, força a retina da proa, displicente,
e minha mão se dobra a querer um giz, um mapa, um caminho qualquer
para tornar ao lugar em que os olhos viram a insuspeita margem, ilha, farol,
gente capaz de um sorriso onde se prove
que viver ainda seja qualquer coisa boa, uma linha além do continente
um poema que não tenha pressa, mas que não tarde sempre
porque os versos que navegam nossos olhos,
que atravessam-nos feitos as terras novas,
sãos os mesmos olhos que se vão com o tempo

                                                                            Márcio Ares Silva  abril/2011
.
Márcio Ares, poeta de talento e companheiro de viagem solidário ( desses que finge não reparar as lágrimas teimosas que escorregam do olho da gente com a poesia do Mia Couto) fez-me um elogio ao que   respondi "são seus olhos, querido". Menos de 10 minutos depois ele me enviava por e-mail o poema acima, seguido da nota abaixo:


para Paula, um pouco de enjôo, alegria, viagem, lamento

Paula,
Assim que você respondeu ao meu insulto, ao elogio se quer, talvez, em melhor modo, falando que “são meus olhos, querido”, pensei, entre o cansaço e a falta de sono, eis aí o barco para um poema. Coisa natural a quem retorna do país das caravelas e grandes descobrimentos. Mas o poema vinha e não vinha. Então escrevi isto.

Serão sempre os seus olhos, meu Capitão.
.

pé de moleque


uma dúvida me inunda:
foi por espasmo podálico
aquele pé na bunda?
.

terça-feira, 19 de abril de 2011

vaca profana


 
eis o mistério da fé:
apreciar com classe
como se doce fosse
uma insossa alface

armadilha


"o amor é um grande laço
um passo pr'uma armadilha"
 Djavan


todo verso que rabisco
 arisco me enrosca
tira lasca
.
cada estrofe que arrisco
é isca, me fisga
me enrasca, me rasga
.
o poema me traça,
 faz troça,
renega, abre nesgas
.
e ate_nua minhas ru(s)gas
.

domingo, 17 de abril de 2011

ponto e vírgula



vai que eu venha rota de tanta derrota
você esfarrapado, apartado da rota;
vem que meu verso é branco e seu ouro, preto
vai que você vire o meu verbo do avesso;
vai que justo hoje você não dê azar
e São Francisco te despache pra cá

você vem manso e cobre com bom tom
minha boca semi árida, feito batom;
vai que você desenhe o vê da vitória
que eu te beije ávida na língua do pê;
quem sabe até caiba na nossa história
muito mais que um par perfeito clichê

você me encanta e eu con_verso convenço
que já não mais vivo ao pé da letra;
vem que eu cochicho em seu ouvido
até tirar do olvido todo o sentido
( vai que fica tudo resolvido...)

vai que eu te tome p(r)onto
você me some vírgula;
eu, Zorro; você, Tonto
a gente cante o conto
e aumente um contraponto

nem vem, vá por ali
que eu fico por aqui;
nos encontramos, enfim
por aí
-  quem tem boca, meu bem
vai a Roma, a Parati
e depois vem pra mim
.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

luso-brasileira


Eu, amarela;
 ele vermelho
Nós ainda meio verdes
pra de_cifrar o fado,
 vede 
mágico espelho

(  ... o mundo gira,
                                                                   a Lusitana roda *)



* pra quem tem menos de 35 anos: este era o slogan de uma empresa brasileira de mudanças. Gira também é uma gíria para bacana, legal em Portugal)
.

terça-feira, 12 de abril de 2011

via ápia



em toda via de roma
te via em cada sorriso
ouvia em tudo que é canto
seu canto de cotovia
nas v(e)ias que ainda havia
fervia em muitos aromas
o gozo do nosso amor
não mais nosso
todavia

sábado, 9 de abril de 2011

Vou ali, volto já






Viajo hoje para Portugal, num roteiro misto de trabalho e lazer.
Deixei alguns textos programados aqui no blog.
Depois da semana santa estou de volta.
Até lá.
Beijo.

.

olhar digital


                                                               de tudo mais me faz falta
olhar olho no olho
o olhar que me escaneia
me deixa nua, indefesa
me molha e me desfolha

à noite não prego olhos
me pego ouvindo estrelas
tentando em vão decifrar
os caminhos pra chegar
a seu olhar, doce lar
.

.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

quinta-feira, 7 de abril de 2011

O que é, o que é



Prata de lei : o dinheiro amealhado por um juiz

fora da lei: sentença equivocada de um juiz

Caso de polícia : romance entre a esposa do delegado e o soldado

Homem-rã : produto do cruzamento do príncipe que virou sapo com a donzela que em pleno século XXI ainda acredita em conto de fadas

João-ninguém: esposo de Maria-vai-com-as-outras

banana-nanica: fruto do pecado, bonsai ( o fruto, não o pecado) que tentou Chiquita Bacana no Éden, a Martinica

mula-sem-cabeça: ser humano muito estúpido e grosseiro, irmão do mala-sem-alça

porta-malas: compartimento do veículo onde devem ser depositados todos os malas-sem-alça

fruta-pão: o mesmo que panetone

peixe espada: ser vivo de dupla preferência sexual que habita as profundezas de rios e oceanos

água-furtada: instalação clandestina da COPASA, correspondente ao "gato" da energia elétrica

cabra-macho: bode nordestino ( ver mulher-macho: homem nordestino )

guarda-volumes:  substantivo utilizado para designar tanto o soutien quanto a cueca

guarda-sol : local para onde o Sol se retira à noite para não ser incomodado pela Lua

seguro-viagem: pessoa autoritária que não permite que aqueles sob sua subordinação ( como filhos, cônjuges, funcionários) tirem férias.

prisão de ventre: castigo divino para todo aquele que comer o pão que o diabo amassou. O confinamento, em regime domiciliar, só é relaxado depois da expulsão do fruto do ventre.
.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

de olho no lance




escritor freelance
procura num relance
editora bem posta
disposta ao romance

garantia de performance
e longo alcance
estuda contraproposta
ligue já, é a última chance
.




segunda-feira, 4 de abril de 2011

divina loucura


tirinha de Carlos Ruas

( rondel )

Há quem pense ser loucura
Refletir sobre o destino
Há quem olhe com censura
Ou ria do desatino

Pra mim, a mente madura
Se faz eterna, menino
Há quem pense ser loucura
Refletir sobre o destino

Cada qual faz sua leitura:
Pra uns, a vida é cassino
Pra outros, grande aventura
Eu creio ser dom divino
Há quem pense ser loucura...
.

domingo, 3 de abril de 2011

Quase vítima


Há um tempão que eu não escuto
num esbarrão, quase num susto,
alguém me olhando nos olhos
dizer que boca gostosa
que sorriso mais bonito
e eu, comigo noutros olhos,
olhando o que eu sou de fora
sorrindo o meu próprio riso

Há um tempão que eu não insisto
em negar, ou quase isso,
um olhar dizendo é hora
se aos meus olhos, noite afora
fui meu auto sacrifício
e eu contigo, nessas horas,
sorrindo o que eu sou agora
trombo em versos mais bonitos

Márcio Ares, abril/2011
http://www.marcioares.blogspot.com/

Márcio Ares é mineiro, filósofo, compositor, poeta, fotógrafo, e policial militar. Insiste em não atualizar o seu blog pessoal - o jeito é sequestrar os versos bonitos que ele me mostra e publicar aqui. 
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game over


o que mais me dói agora
é ver esse infinito amor finado
é não cruzar teu olhar de outrora
agora que me conjugas passado
(perdido, posto, acabado)

o que mais me dói agora
da garganta por um nó te prendo
do corpo pelos poros me escapas
agora a vida insone me apavora
(meu sonho, o teu devora)

receio que o que mais me dói agora
é perceber que na madrugada vazia
só lembranças me farão companhia
agora que a ausência de ti vigora

no fundo, sinto que o que mais dói agora
é pressentir as propostas sem propósito
consentir na espera que desespera
agora que sei que a paz inda demora

o sonho acabou, te pergunto ciente
como sublimar um amor que evapora
peço que esclareças antes de ir embora
a mim, que só te sei conjugar presente
.

.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

custe o que custar




SEM FUNDOS
transtorna,
retorna, contorna.
até que ele a ex-torna
CLANDESTINA
por fora forte, citrina
lá dentro, nina e confina
delicada menina
A PRIMEIRA PEDRA
não questiona, vende a alma
faz-se doce, terna, calma
mas não mora na zona
.