quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Chapeuzinho, quem diria...

Chapeuzinho era chamada de Chapinha Vermelha quando finalmente superou o traumático episódio da floresta. Graças aos avanços da tecnologia cosmética, seus cabelos, antes indomáveis e escondidos sob o capuz, balançavam soltos, lisos a vapor. Como toda garota boazinha que se preze, Chapinha adolesceu em graça, formosura e rebeldia - expressa nas pontas vermelhas.

O confronto com o lobo aproximou as famílias de vítima e salvador. Visitavam-se nos aniversários e feriados. A companhia preferida de Chapinha nessas ocasiões era Cássio, o filho mais velho do caçador. Cássio era excelente pessoa: bem educado, bom caráter, gentil. E estava se saindo muito bem na profissão de Caçador de Pipas. Boazinha Chapinha não era – com a história do lobo, havia aprendido a não pôr o chapéu onde a mão não alcança. Mas era boazuda e Cássio caiu de amores.

No pedido de casamento, o rapaz surpreendeu-a com um anel de família, herança do bisavô Fernão, o Caçador de Esmeraldas. Chapéu, cheia de encantos, encantou-se pelo rapaz de maneiras encantadoras. Os primeiros tempos de vida em comum foram encantados. O marido, um encanto que só vendo, não se descuidava nos mimos. É o chapéu que faz o homem, justificava-se, com franqueza encantadora. Os negócios da família prosperaram e ela tornou-se Hatty, presença constante no high society. Formavam um casal de se tirar o chapéu.

Com o tempo, no entanto, Hatty passou a sentir um vazio inexplicável. A vida era tediosamente feliz. Cássio era tão solícito e apaixonado, que dava vontade, como diria a finada vovozinha, de mandar tudo para a Casa do Chapéu.

Na estréia de um show patrocinado pelo marido, Hatty se sentiu irresistivelmente atraída pelo guitarrista com cara de mau. Aquelas manoplas, aqueles olhos tão grandes, aquela voz rouca lhe evocavam lembranças... Procurou se informar: chamava-se Lobão e ninguém podia dizer que era lobo em pele de cordeiro. A dondoca deu um chapéu no marido e aproximou-se do bad wolf. Sentiu-se como Bela Adormecida, despertada por beijos lupinos.

A vida voltava a ter sentido: por Lobão, Hatty perdeu o chapéu e a cabeça. Por causa dos dois, Cássio passou a usar chapéu de touro. O marido foi compreensivo: afinal, um dia é da caça e o outro é do caçador. Propôs esquecer tudo. Quem sabe uma viagem a Minas, para visitar o primo Milton, o Caçador de Mim ou a Alagoas, terra do Fernando, Caçador de Marajás? Hatty fincou pé. Mirou-se em Luma de Oliveira: também queria viver seu amor bandido.

Lobão era polêmico, envolvia-se com drogas, indispunha-se com as gravadoras, denunciava o jabá das emissoras de rádio e TV, sumia de casa por dias, tratava-a mal... As finanças do casal eram mais apertadas do que chapéu novo: para sobreviver, passavam o chapéu entre parentes e conhecidos. Mas quem tem medo do lobo mau? Chapéu ( Hatty foi-se com o high society ) não tinha. Viveram, aos trancos e barrancos, por quase seis anos.

Um dia a sorte sorriu para Lobão. Ele lançou um CD Acústico aclamado pelo público e virou VJ na MTV. O sucesso e a idade fazem milagres : o músico abrandou o gênio, abandonou as drogas, enquadrou-se ao sistema, ficou atencioso e simpático.

Chapéu agora é feliz... tediosamente feliz... Quase todas as noites, ela sonha com um Caçador de Emoções.

E sente um vazio inexplicável...

( Os bonzinhos e os politicamente corretos que me perdoem o final pouco edificante, mas Chapéus gostam mesmo é de bad boys. )

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

O olho que tudo vê


GULA é o olho maior que a barriga.


AVAREZA é olho grande para tudo que custa os olhos da cara.


IRA é quando o olho por olho fura olhos.


LUXÚRIA é o olho nu que lança olhar fatal para a menina dos olhos.


INVEJA é olho gordo e comprido... Credo, tira o olho!


PREGUIÇA é olho mágico: esforço no olho do outro é refresco.


ARROGÂNCIA é ter olho de vidro para o seu tamanho real.


( Já o amor é cego, mas vê pelo terceiro olho...)

Santo de casa


Quem não tem sequer uma mania, que atire a primeira pedra. Imelda Marcos colecionou sapatos, Debora Secco cataloga namorados, Lula tem queda por charutos – o meu fraco são os santos. Tenho uma coleção considerável de imagens, que variam em tamanho, material e habilidade do artesão. Meu santo é forte, não tenho do que me queixar : sinto-me bem entre objetos que evocam o sagrado.


De vez em quando um santo dá baixa do exército guardião. No último sábado, no transporte de uma cama, a imagem de Nossa Senhora do Silêncio foi decapitada. Quase perdi a cabeça. “Devagar com o andor que a santa é de barro”, deveria ter alertado os carregadores, em antecipação à máxima gravitacional “pra baixo todo santo ajuda”. Só não chorei ao coletar os cacos da imagem, presente de uma grande amiga, porque duvidariam da minha sanidade mental.


Nem louca, nem santa: um pouco supersticiosa, admito. Na bolsa, a miniatura em chumbo da imagem de Santo Onofre me protege contra a falta de dinheiro – pena que ela não me lembre de passar no caixa eletrônico para sacar em espécie. Divide espaço com Santo Onofre um terço de pétalas de rosas abençoado por João Paulo II e uma prece de Santo Expedito, o santo militar das causas impossíveis. Conta-se que uma gráfica especializada em santinhos rumava à falência quando seu dono teve uma santa idéia: imprimir cópias da oração de Santo Expedito e deixá-las em igrejas, com a recomendação de se imprimir novo milheiro de cópias a cada graça alcançada, advertindo que o santo da última hora requer presteza no que lhe é prometido (?!). Os negócios prosperaram, a gráfica é hoje uma bem sucedida editora. Quem disse que santo de casa não faz milagres?


Só abandonarei o hábito gregário no dia de São Nuncas: daria trabalho recolher todos os objetos sacros. No criado mudo ao lado da cama descansam a Bíblia, um crucifixo de prata mexicana e a imagem impressa de Maria, adquirida num camelô. No carro, reúno terço franciscano, oração de São Cristóvão e adesivo de Maria. Prudência nunca é exagero: patrão fora, dia santo na loja. Para falar a grandes grupos, traz-me confiança sentir o Tau pendurado no pescoço. Certa vez, a caminho de um hotel fazenda onde conduziria seminário para uma rede de franquias, não hesitei em voltar quase trinta quilômetros sob chuva forte só para resgatar o tal Tau deixado em casa. Se São Francisco julgava excesso de intimidade eu levar seu símbolo mais sagrado no colo, nesse dia ele deve ter se convencido da devoção.


Pelo santo se beija o altar: o costume atingiu outros membros da família. Sabemos a quantas anda a vida sentimental da minha filha mais velha só de observar o seu termômetro amoroso. Nos dias de sol do namoro, a imagem de Santo Antônio repousa incólume no oratório. Em tempo nublado, a imagem fica de castigo, virada para a parede. Já encontrei o santo no banheiro, entre a pia e a louça sanitária: devia ser tempestade brava! Há mulheres ainda mais cruéis ( ou desesperadas) que dependuram o santo de cabeça para baixo, afogam-no na banheira... Indago a mim mesma por que ele ainda se dispõe a encontrar marido para moças que impingem tamanho calvário ao pobrezinho... Deve ser por vingança!


Zelo pelas minhas imagens, não desvisto um santo para vestir outro, mas não exagero no desvelo : quando a esmola é muita, o santo desconfia.


Santa tietagem explícita, Batman! diria o garoto prodígio de Gotham City.


Ledo engano: é que o santo faz o milagre, mas o milagre não faz o santo.

domingo, 9 de novembro de 2008

De quatro


De quatro Napoleão perdeu a guerra, após a Batalha de Waterloo, atingido de raspão por um tiro.

O número 4 representa plenitude, totalidade, abrangência universal, o concreto, aparente e matemático. Contrapõe-se ao 3, transcendental, espiritual, abstrato e divino. Platão resumiu a diferença entre os dois: “ Se o ternário é o número das idéias, o quaternário é o número da realização das idéias”.

No século V a.C Hipócrates, Pai da Medicina Científica, lançou a teoria dos quatro humores – sangue, bile negra, bile amarela e linfa. Desmistificando a crença de que maus espíritos eram causadores de todos os males, justificava os quatro tipos de temperamento – sanguíneo, fleumático, colérico e melancólico. Para ele, quatro eram os órgãos principais ( coração, baço, fígado e cérebro) e a função do médico era promover o equilíbrio entre eles. Dos quatro humores da Antiguidade, saltamos às quatro bases da Biologia Molecular. O DNA é formado por adenina, timina, guanina e citosina, cada base formada por sua vez, por quatro elementos químicos – carbono, oxigênio, hidrogênio e nitrogênio. Se na Antiguidade a palavra-chave era humores, nos próximos anos a palavra de ordem em medicina deve ser Ética. Clonagem, eutanásia, células tronco são assuntos tão controversos que a Ética deverá ser o divisor de águas da profissão. Para emitir juízos éticos, utilizamos os quatro quadrantes cerebrais: percepção, reflexão, conclusão e ação. Afinal, como já dizia Hipócrates “A vida é breve, a ocasião instantânea, a experiência incerta e o juízo difícil”.

Na natureza, são quatro os elementos – fogo, terra, água e ar -, os grandes oceanos – Atlântico, Pacífico, Índico e Ártico – e as qualidades táteis – frio, seco, quente, úmido. Os pontos cardeais nos orientam a localização e os pontos da pirâmide (contando com o centro) nos energizam. Assim, bradamos nossas verdades aos quatro ventos, pelos quatro cantos da Terra.

Quatro indica base, sustentação, estabilidade, equilíbrio e segurança. São quatro as pernas da cadeira, os pilares de sustentação, os membros do corpo humano e as patas nos animais. Para sentir segurança, nada melhor que carros de quatro portas, com tração nas quatro rodas.

13 é número da sorte, cuja soma dos algarismos 1 e 3 é quatro. Sorte também tem quem encontra um trevo de quatro folhas. O Cruzeiro do Sul tem quatro estrelas e nos leva ao Céu. São quatro as operações matemáticas básicas ( soma, subtração, divisão e multiplicação), e as dimensões ( largura, comprimento, altura e tempo). O quadrado tem quatro lados, quatro vértices, quatro arestas. Quatro são as ciências fundamentais - aritmética, música, astronomia e geometria – e, na Mecânica Quântica, também as partículas de força – Gravidade, Eletromagnetismo, Nuclear Fraca ( radioatividade) e Nuclear Forte.

Dizem que quatro coisas nunca voltam: a pedra atirada, a palavra dita, a ocasião perdida e o tempo passado. Dos quatro gigantes da alma, três são obstáculos – Medo, Ira e Dever –, neutralizados pelo Amor. No Antigo Testamento, Deus fala dos quatro juízos sobre Israel. O Budismo é baseado em quatro nobres verdades: a Vida é sofrimento; o sofrimento vem do apego; o apego pode ser superado; há um caminho para isso. Quatro são os discursos de Aristóteles – poética, retórica, dialética e lógica.

Quatro estações do ano: inverno, tempo de recuperação e hibernação, primavera, tempo de brotos, verão, auge do sol e outono, início do deflorescer. O mesmo padrão cíclico se repete nas fases da lua e nas fases da vida: infância, adolescência, maturidade e velhice. A licença-maternidade dura quatro meses na legislação brasileira e é por volta da quarta década de vida que homens e mulheres refletem sobre o passado e redefinem a rota para o futuro. Quem nunca ouviu falar da Idade do Lobo, quando homens dormem com vovozinhas e sonham com Chapeuzinho Vermelho? Eleições presidenciais, Copas do Mundo e anos bissextos ocorrem a cada quatro anos.

Há algum tempo perdi a confiança em presidentes que nada vêem, nada sabem e que têm somente quatro dedos em uma das mãos.

Para Henry Mencken, a principal diferença entre o homem e a mulher é que “ Um homem perde o senso de orientação após quatro drinques e uma mulher, após quatro beijos”. Há controvérsias : já não se fazem mais mulheres como antigamente e o fígado anda muito resistente aos destilados...

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Passe adiante a idéia: Projeto Papai Noel dos Correios

Eis que chega outro Natal
Tempo de plantar semente
No sertão há fome e seca
Na cidade tem enchente...
Quem puder que se prepare
Num ritual diferente.

Pra isso os Correios têm
Um projeto social
Crianças carentes pedem
E recebem, via postal
Carta-resposta ou presente
Na magia do Natal.

Guris escrevem cartinhas
Pra figura imaginária
Fazem isso há vinte anos
Driblando a sina diária
Sonham, mas sem desatino
- é coisa da faixa etária.

São pedidos muito simples
Nada de muita gastança
Panetone, blusa, bola
Boneca, saião de dança
Não vale medicamento
Mas vale muita esperança.

São um milhão de adotados
Só na agência central
A sociedade os apóia
Em frente incondicional
Também é cidadania
transformação cultural.

É só ir até os Correios
Para adotar um pedido
Comprar o belo presente
Pôr em papel colorido
Eles entregam na casa
Do remetente escolhido.

É gesto paternalista
Não corta mal na raiz
Compensa pelo sorriso
De uma criança feliz
É de pouquinho em pouquinho
Que se muda este país.

A vida passa depressa,
E tudo que aqui se fez
Ao fim, é o que restará
Adote um, dois, três...
Até 20 de dezembro
Eles contam com vocês.

Mais informações em http://www.correios.com.br/institucional/conheca_correios/acoes_cidadania/papai_noel.cfm ou na Agência Central dos Correios de sua cidade.

O projeto também precisa de voluntários para triagem das cartas.
Passe adiante a idéia.

domingo, 2 de novembro de 2008

Discutindo a relação

Sabe o que faz no restaurante aquele casal, na mesa próxima à sua, um em frente ao outro, sem se olhar, tocar ou conversar durante todo o jantar? O Homem e a Mulher silentes, que entram mudos e saem calados?

Discutem a relação. Telepaticamente.

Ela parte palitos em pedacinhos, compõe com eles desenhos geométricos na toalha, desmancha-os, derrama sal na mão, suja a mesa, recolhe tudo no cinzeiro. Precisa aplacar a ansiedade e a angústia que lhe toldam a alma. Se ao menos ousasse dizer o que devia ser dito...

Ele pensa no jogo de futebol. Amanhã tem clássico na TV. Se ao menos a quarta-feira chegasse bem rápido....

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Mea culpa

A barriga está enorme, as pernas incham, você suspira e anseia pelo nascimento. O bebê nasce. E chora dia e noite. Zumbi, você pensa que talvez se não lhe amamentasse tão amiúde, ele se acostumaria ao jejum e não teria força para esgoelar-se. Você só quer escapar dali. Até saudades do chefe mandão você sente...

Na volta ao trabalho, a nenê berra, não alimenta bem. Você se culpa : se não a paparicasse tanto, talvez ela não sentisse a sua falta. Você a acompanha à distância : quem vê os primeiros passos, escuta a primeira palavra é a babá.Perto dos dois anos, você a ouve chamar a babá de mamãe e lamenta a desdita de trabalhar. Se ao menos você pudesse estar com ela mais tempo...

Aos treze, sua mocinha é reprovada e você perde parte da ilusão de que ela é o Ser Perfeito na face da Terra. Pura questão genética : se você tivesse casado com o Eugênio, o nerd que emudecia na sua presença... Você escolheu Marcelo, o “Belo” : bonito, louco por um rabo de saia, inteligência limitada ( limítrofe?). Aos quatorze, a menina que você imaginou top model da Ford, alimentada a geléia real, faz o tipo hippie : rosto lavado e sem pintura, saião, rasteirinha, cabelo despenteado. Vá se queixar ao bispo : quem falou sobre Woodstock e levou o dvd do musical Hair para casa?! Na festa de quinze anos, ela dança a valsa de pé no chão, sozinha no salão, ao som de “Lucy in the sky with diamonds”. Quem apresentou os Beatles para ela?!

Um dia ela comunica que vai estudar Comunicação Social. E você pensa em todo o danoninho – cálcio, ferro, vitaminas – da infância. Desperdiçado, assim como o seu sonho de ter a filha presidente de multinacional. Foi você quem estimulou a criatividade, financiou as aulas de teatro e dança! E ela apresenta, de uma só vez, o namorado guitarrista de banda, o rabo de cavalo dele e a tatuagem no seio dela. Quem falou a ela sobre biodiversidade, equidade social e liberdade de expressão?!

Aos vinte e dois, você tem um piripaque quando ela quer dormir com o namorado em casa : o estímulo para reunir os amigos na sua casa para escapar da violência urbana partiu de você. Você repete o mantra “nunca fiz apologia a drogas ou erva”... Opa, será que a erva de passarinho que parasita a árvore em frente à casa ou a droga do Marcelo, sempre ausente, contam?

Ela faz pós graduação no exterior, a casa fica vazia, você se desmancha de saudades. Resignada, lembra que as aulas de inglês, espanhol e alemão foram úteis, enfim. Aos trinta, ela volta e se instala na sua casa – eis o resultado de tantos anos de mordomias dignas de hotel cinco estrelas. Você dependura Santo Antônio de cabeça para baixo até ela arranjar um marido. Aí ela casa e fica dias sem ligar, sempre ocupada. E você se recrimina : quem mandou fazer dela uma grande amiga? Bem que te avisaram : mãe é mãe, amiga é amiga.

Você anseia pelos netos e os netos chegam. Todo fim de semana. O fim de semana todo. Sua casa é um pedaço de Sarajevo e você se arrepende de ter tratado bem os pirralhos da primeira vez. Aí ela se separa e volta para sua casa de mala, cuia e dois curumins. Só até tudo se acertar. Sua casa agora é uma oca, você perdeu o posto de cacique. Você apela para Tupã.

Então você repassa toda a sua vida para entender onde foi que errou. O erro foi do destino que não te fez mãe judia. Aquela sim, teve muita sorte : um filho admirado por todos, pleno de virtudes... um pouco rebelde, é certo, mas isso era problema do Pai, com quem voltou a morar aos trinta e três anos. Daquele sim, dava gosto ser mãe... Filho bom foi Jesus Cristo!

Você considera a possibilidade de fugir de casa para morar com os índios numa tribo amazônica.

domingo, 26 de outubro de 2008

Tem gente!

Corro o risco de ser taxada de polêmica e insensível, eu sei, mas a exploração do caso de Santo André já extrapolou todos os limites aceitáveis. E está dando nos nervos.

Tem de tudo neste mundo: gente que se alia a namorado para dar cabo dos pais, gente que joga a filha pela janela, gente que promove sessão particular de extermínio na sala de cinema, gente que mata o objeto de sua paixão insana...

A questão é que tem muita gente no mundo. Gente fazendo de tudo, bem embaixo dos nossos narizes. Tem gente que sofre e gente que comercializa tragédias. Gente crédula e gente que abusa da confiança. Gente que faz e gente que senta em cima do próprio rabo para criticar. Gente que cai feio e gente que ri de videocassetada. Gente que batalha pelo pão de cada dia e gente que incita a fofoca, se alimentando da batalha alheia. Gente que bateia e gente que tampa o sol com a peneira.

Não foi noticiado, mas tem gente solitária que dá boa noite ao William Bonner por não ter com quem conversar. Gente se pintando de verde para ganhar a proteção dos ecologistas. Gente que come o pão que o diabo amassou. Gente, igual a você e a mim, que, literalmente, morre de fome. Aos milhares. Todos os dias.

Tem gente matando um leão por dia - a beliscão. Tem gente, em tempo de vaca magra, que se vira para a esquálida não ir pro brejo. Tem gente fazendo das tripas coração bem ao lado da gente.

Tem gente mais folgada que colarinho de palhaço e gente apertada como sardinha em lata. Tem gente mais perdida que freira em zona e gente louca para se perder. Tem gente que acha que campanha política tem que ser suja como pau de galinheiro. Tem gente que aceita que candidato sujo cante de galo.Tem gente que dá azar e gente que despreza a sorte que tem. Gente se fingindo de rico e gente se passando por pobrezinho. Gente que se doa ao bem e gente que vende a alma ao diabo.

A coisa anda mais feia do que rascunho do mapa do inferno - de cabeça para baixo. Minha avó dizia que, se o mundo fosse bom de verdade, o Dono morava nele. Mas gente que pensa escolhe o tipo de gente que quer ser. E o tipo de informação que quer ler, ouvir e comentar.

E não venham bater à minha porta contando as agressões que Liso sofreu ao ser preso, o passado do pai de Eloá, o que Nayara vestia ao sair do hospital. Tampouco quero saber da herança de Suzanne ou como Mateus e Alexandre passam os dias na cadeia. O recinto está ocupado. Aqui dentro tem gente. Gente que tem mais o que fazer.

Abissal

Vasco e Edmundo:
bem lá no fundo,
Paixão Animal.

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7 faces

Bem lá no fundo,
Drummond devia ser
Raimundo.

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Garoto

Adorável Carlitos:
bem lá no fundo,
Chaplin, eterno vagabundo.

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Machado sem cabo

Bem lá no fundo,
se não nado,
afundo.

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Limbo

Bem lá no fundo
do mundo,
o submundo.

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Se vou
bem lá no fundo,
aprofundo.

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No fundo,
bem lá no fundo.
Redundo.

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sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Faz parte *


Pra passar no vestibular
encaro as desumanas exatas,
engulo a insípida geografia,
amanheço a mnemônica biologia,
afogo no mar de teorias físicas.


Nem só de línguas, literatura,
filosofia, história, matemática
se faz o homem.
O homem se faz na arte
do encontro de suas partes.


Dedilhar as cordas da geografia
e produzir sons históricos,
decantar a poesia da química,
dançar o ritmo da geometria,
encenar as tramas da biologia,


Faz parte,
mas só uma ínfima parte
da Vida, todo maior
poesia e arte:o todo, a parte.


* pra Leca, parte indivisível do meu todo.

Ninguém merece




Para muitos, a crônica é a prima pobre da poesia. Uma elege temas universais e atemporais, enquanto a outra enfoca o cotidiano de prazo de validade curto. De fato, a maioria das crônicas fica rançosa com o passar do tempo. Poucas têm vida média de carbono, resistindo ao espaço e intempéries naturais. A crônica bem elaborada é cápsula do tempo, registro histórico pela terceira visão – nem vencedor, nem vencido – do impacto e relevância que o fato trivial teve sobre o autor. Há quarenta anos, em meados dos anos sessenta, Paulo Mendes Campos escreveu “Coisas abomináveis”, um relato de “crimes contra a criatura humana na vida moderna”. A abordagem, ainda atual, faz-me concluir que alguns cotidianos são crônicos.


No texto, o cronista mineiro arrolou, entre as coisas que abominava, atraso de avião, preencher aquele formulário hermético e algébrico da Divisão do Imposto de Renda, os maus serviços da Companhia Telefônica ( as companhias, hoje muitas, padronizaram o atendimento precário ao cliente). No quesito saúde, registrou os rumores de epidemia de varíola ( com a erradicação da doença, os boatos foram parar nas freguesias da febre amarela, AIDS, gripe asiática) e enfarte de pessoa da nossa idade ( a má notícia é que entrei para o time da “nossa idade”). Nas relações humanas, o autor explicitou a insatisfação com sujeito falso importante, mulher feia falando de bonita, moça que não sabe que mulher só pode falar um palavrão por semana. Não é atualíssimo?


Ouso continuar a idéia do cronista. Uma amostra de coisas detestáveis contemporâneas poderia incluir o voyerismo tácito que faz com que o assunto hit em todas as rodas seja as peripécias do BB8; gente que fala aos gritos no celular, expondo ao mundo sua privacidade; axé, funk e demais variantes dessa batida retumbante e chata; salários irreais de jogador de futebol; massificação do pensamento; fama passageira e sem mérito; consumismo desenfreado; relacionamentos humanos descartáveis; vendedor solícito demais ou que te ignora; caça à vaga no estacionamento lotado do shopping; filas em bancos; lista de espera em restaurantes; recepções faraônicas de gosto duvidoso, dignas de novo rico; padrões maleáveis de moral e conduta socialmente aceitos; fanatismo e intolerância religiosos; impunidade; rótulos e categorizações; imprensa marrom; vírus cibernético; correio eletrônico lotado de spam; truculência urbana; imediatismo social; bêbado bonzinho e grudento; carga tributária excessiva; estradas esburacadas; taxista que puxa assunto depois de você ter dado todos os sinais que está entretido em colóquio consigo mesmo; política de cotas para negros em universidades públicas ( atacar os sintomas não atinge a causa da doença); governo corrupto, inoperante e populista; publicidade grotescamente inserida no nosso programa favorito; farras do boi e do cartão; a efemeridade da tecnologia; CPIs que acabam em pizza; a mercantilização da saúde privada e o pouco caso com a saúde pública;...


Fale a verdade: a gente merece?

Liberou geral


Pobrezinhas de nós, mulheres!
Triste sina : sempre tão incompreendidas, pré-conceituadas, rotuladas, estigmatizadas.

Se somos solidárias e cooperativas, é porque somos exploradas;
Se nos focamos no trabalho, somos alienadas egocêntricas.
Se demonstramos sentimentos, somos manteiga derretida;
Se nos contemos, somos calculistas, icebergs, frias (frígidas?)
Se somos ativas e militantes, rotulam-nos de sapatonas;
Se aceitamos passivamente o destino, falta-nos têmpera.
Se estamos cansadas na segunda-feira, pipocam as fofocas.
Se estamos bem-dispostas, fofocam também.
Se vamos trabalhar gripadas, vamos contaminar os colegas;
Se ficamos em casa, caímos de cama por qualquer bobagem.
Se usamos mini, exibimos descaradamente os nossos corpos;
Se usamos calça comprida, estamos escondendo varizes...
Se usamos maquilagem, chamam-nos pistoleiras;
Se não nos pintamos, somos relaxadas e descuidadas.
Se deixamos nossos bebês na escolinha, somos desnaturadas;
Se ficamos em casa para cuidar deles, somos pilotos de fogão.
Se nosso trabalho é inexpressivo, não temos ambição;
Se nosso trabalho é qualificado, casamo-nos com a profissão.
Se vamos para a night, somos baladeiras alcoólatras;
Se ficamos em casa, nenhum homem nos quer.
Se somos produtivas, perdemos o encanto;
Se não o somos, perdemos o emprego.

Quer saber? Não importa o que façamos, estaremos sempre erradas.
E isto é ..... libertador! Podemos fazer o que quisermos!
Viva a liberdade!Be happy, be free!
Ou como diria Tiradentes "Libertas quae sera tamen" !

Texto desenvolvido a partir de anedota que circula na internet, de autoria desconhecida.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Uni-verso feminino







DE LUA



Vez por mês sangra,



singra à míngua,



solta a franga.






SEM FUNDOS



Transtorna,



retorna, contorna.



Até que ele a ex-torna.






DESABAFO



Desaba,



deságua a alma pelos olhos.



Desabrocha.






CLANDESTINA



Por fora forte, citrina



Lá dentro, nina e confina



delicada menina.






A PRIMEIRA PEDRA



Não questiona, vende a alma



Faz-se doce, terna, calma...



Só não mora na zona.






TONTA



A folhinha aponta um mês sem você



Mas não conta o que falta



Pra eu te esquecer.






ILUSÃO DE ÓTICA



Espelho, espelho meu:



Que elas se enxerguem



mais feias que eu.






QUE MEDO...



Quer virar a mesa,



fazer e acontecer, devassa.



Covarde, faz-se presa



e a vontade passa.






SIMPLES ASSIM



Tanto retraí,



que um dia distraí:



atraí. Aí, traí.






WORKAHOLIC



Sóbria, mas de porre



caiu de boca no corre-corre.



Ébria, morre.






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Quando os homens falham




Na vida, aprendi que calma e bom humor são as vias preferenciais de acesso ao coração do outro. E que raras crises resistem a uma boa e franca conversa cara a cara. Deixar-se levar pelos atalhos da exaltação de ânimos só piora as coisas. Veja só.



- Como é que você me explica isso?
- Sei lá, tanta coisa na cabeça... O Lula, a queda das ações da Vale...
- Se continuar assim, é a minha cabeça que vai rolar... O que eu digo pra Lorena?
- Não explica, ora. Ela fala igual a uma criancinha, Rodrigo. E Lorena lembra a Bobbit...
- ???- A americana que mutilou o marido. Depois ele fez implante, lembra...? Não dá, não sobe! Aquela calcinha devia ser proibida por lei federal... Calcinha bege e larga lembra as calçolas do varal da casa da vó Shirley!
- É mesmo... Nem o lobo mau dava conta...
- Você ouviu o que ela falou no final? Ela não nos merece, cara...
- Aquele “Credo, seu pé era tão grande...” foi de lascar, concordo.
- Pois é. Apelou, perdeu! Liga não, avante. Cabeça erguida!
- O mesmo eu te digo... Da próxima vez, vê lá, hein?


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- Que vexame, meu!
- Eu sei, é duro!
- Mole, você quis dizer... O que aconteceu pra você dormir em serviço?
- Eu é que te pergunto. Não era dia de sobreaviso... Primeiro encontro, aperto de mão, restaurante sofisticado pra impressionar...- É que ela quis...- Sem aquecimento não dá, já te falei... Tem que ter preliminar pra rolar clima... Beijo, toque, essas coisas... Nem parece que você frequenta academia. Se não alongar, dá câimbra. POXA!
- Foi inesperado para mim também... Mulher de atitude, hein?
- Atitude demais... E o que é demais, sobra... Sem aviso prévio, nada feito.
- Tudo bem...
- Ninguém é de ferro, cara! Prontidão gasta energia...
- Tá, tá.
- ... Tô pensando em desistir, Rômulo... É muito serviço...
- Não faz isso, fica calmo. Eu sinalizo antes, prometo...
- Preciso de umas férias pra esfriar a cabeça... um mês.
- Aí você me avacalha... 5 dias.
- 15. Estou deprimido, você não está vendo?
- 10 e não se fala mais nisso. Mas tem que voltar animado, firmão...
- Fechado.
- ... Até que ela foi legal com a gente... Disse que estava tudo bem... E que nem estava muito a fim...
- Ô! Já pensou se estivesse?!


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- Levanta-te e anda, descrente!
- ...?
- É com você mesmo! Fica aí deitado em berço esplêndido enquanto eu sufoco o meu brado retumbante ...
- Acontece com qualquer um, calma...
- Incapacitar fisicamente o resto da humanidade vai ajudar em quê?!
- Era muita areia, Roberto!
- ...?
- Pro nosso caminhãozinho. Eu nem sabia por onde começar. Um espetáculo!
- Mulheraço, né? Que boca... Tinha tudo pra ser perfeito! Ficar na memória...
- Aí afogou o motor... excesso de combustível. Expectativa demais.
- E o que eu faço agora?- Esquece. Amanhã você liga pra ela...
- Você acha que a Ciccarelli vai nos dar uma nova chance?


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- Meu melhorrrr, inseparável e ÚNICO amigo! Eu te AMOOO! Como é que foi acontecerrrr isso?! Logo comigo...
- Foi a bebida, cara... Olha o pé da cama!
- Bebi justamente pra animarrrr...- Excesso de combustível... afogou o motor... de cima.
- Falarrrr “eu agora entendo o seu carro...” foi golpe baixo dela, pô!
- Foi mesmo. A Ferrari não tem nada a ver com isso, Ronaldo... Entra no chuveiro pra apagar esse fogo... E fala baixo, que a imprensa tá de olho na gente.


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Antes que me perguntem se já aconteceu comigo: claro que não! Nem com você, tenho certeza. Graças a Deus, certas coisas só acontecem com os outros.

Em poucas palavras


a) Saudade é a alma* que, na ausência, vai para perto.

b) Solidão é a alma que, na presença, voa longe.

c) Indiferença é a alma em coma profundo.

d) Ciúme é o protesto da alma, incapaz de domar outra.

e) Inveja é o protesto da alma, incapaz de copiar outra.

f) Mágoa é a alma empacada no único trecho riscado do CD.

g) Arrogância é quando a alma sobe no Evereste pra se sentir no topo.

h) Renúncia é quando a alma dá um passo atrás e vai cuidar de outra coisa.


i) Paixão é a alma no olho do furacão.

j) Paz é quando a alma tira férias de tantas emoções.

* alma ( anima) : princípio que dá movimento ao que é vivo.

Autobiografia


Há pouco ele virou saudade
Ah! Se eu me chamasse Piedade
Boa de cama e mesa
Às vezes, sou Tereza
Tenho lábios de puro mel
Quando me faço Isabel
Grande amor pela família
Só posso ser Ana Emília

Valente, cheirando a açucena
É a minha porção Helena
Tanta energia e alegria
Quem dá conta é Sofia
Com a face bem redonda
Sou a própria Gioconda
Tenho pés de centopéia
E corpo de Dulcinéia.

As mulheres que vivem em mim
E compõem a minha personalidade
São tantas, dispares, múltiplas - enfim,
Assumem minha parcial sanidade,
Completa integridade, relativa profundidade
Com pitadas de felicidade.

Dando bandeira


Penso muito, escrevo mediano,
Falo pouco, não faço poesia.
Descrevo, invento o cotidiano
Real ou por vir, com ironia

Não transito bem entre verbos,
Nada sei sobre neologismos,
Desconheço Teodora, Manuel.
Nossos mundos, fundos abismos ...

Pra piorar, que destino cruel!
Não te batizaram Teodoro
Pois eu recriaria, orgulhosa:
Teadoro, Teodoro.


Gosto do seu poetar, Bandeira.
Termino por aqui essa prosa,
Que basta de marcar bobeira.


* intertextualidade a Neologismo, de Manuel Bandeira

sábado, 27 de setembro de 2008

Questão de justiça


“Justiça é a substância da civilização,
a essência da sociedade,
a síntese da política cristã".

Rui Barbosa

Temas são imprevisíveis. Alguns se fazem de difíceis, penoso é abordá-los. Outros chegam como quem não quer nada, intrometem no nosso pensamento, praticamente atiram-se aos nossos pés. Há pouco meu concunhado me convidou a participar de um projeto a quatro mãos sobre Justiça e Ética. Depois foi a vez de minha filha me envolver numa prosa sobre justiça social. Por último, um amigo virtual me incitou a escrever sobre o “sentimento de justiça”. Três episódios isolados e aparentemente desconexos: tentei fazer que não era comigo, que médica não sabe discorrer sobre justiça. Não houve escapatória, fui laçada. Arrisco.


Por conta da educação que recebi, meus dias em menina começavam sempre com o Pai-Nosso. Eu tinha fome de religiosidade. Cresci, tive minhas próprias filhas, continuo ligada a Deus, mas opto por ensiná-las a começar seus dias com o Pão Nosso. Hoje somos todos famintos de humanidade. Por onde quer que se olhe, os sinais são espalhafatosos, quase pirotécnicos: o caminho digno para a libertação do ser humano passa pela prática da justiça.


Para Aristóteles, a justiça se caracterizava pela legalidade e igualdade. No mito grego, Thêmis, deusa da justiça, protetora dos oprimidos, conselheira e esposa de Zeus, deu à luz as Horas, responsáveis pelo fluxo da vida e equilíbrio da sociedade. É representada tendo à mão uma balança, símbolo da equidade e equilíbrio. Com uma venda nos olhos se faz imparcial.


Thêmis também era deusa dos oráculos. Faz sentido: entender a dinâmica da justiça é tarefa oracular. Recorro aos ditos populares: ela não dorme, não conhece pai nem mãe – só a verdade. É preciso ser paciente: ela tarda, mas não falha ( se ela tarda, não falha?!). Diz-se que seu braço é comprido e, para ser boa, começa em casa. Para alemães, quanto mais leis, menos justiça. Há quem afirme que, quando ela é extremada, extrema é a injustiça – talvez por isso quem a aplica, deve temê-la. A prudente sabedoria de Gandhi salva-me da confusão conceitual “Se ages contra a justiça e eu te deixo agir, então a injustiça é minha”.


Melhor é voltar ao “sentimento” de justiça. Preciso senti-la para garantir sua prática. É difícil: muitas vezes, o direito, instrumento de justiça para a conquista da paz, deixa de proteger a dignidade humana. Esse direito ilegítimo esconde o egoísmo dos que não se envergonham de manipular para obtenção de privilégios pessoais. São históricas a arrogância e a insensibilidade dos que se alinham com o poderio econômico, militar ou político. Surpreende, embora relativamente comum, a atitude dos pouco favorecidos que se destacam na escalada social, esquecem-se da origem humilde e debandam para o lado dos dominadores. É esforço quixotesco lutar por justiça?


Acredito que não: mais do que direito, é nosso dever contribuir para a construção de uma sociedade igualitária e justa. É preciso democratizar a organização social e valorizar o ser humano. Devemos exercer nossos direitos com fraternidade, estendendo a mão solidária aos que esperam o dia da libertação. Justiça é inerente à condição humana. Não é preciso ser doutor em leis para refletir, exercer e clamar por ela.


A justiça é cega, não nós.

Há que vivenciá-la de olhos bem abertos.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Em terra de cego


Esta história é conhecida. Cinco macacos são colocados numa jaula: no centro, uma escada e, sobre esta, um cacho de bananas. A cada vez que um macaco sobe a escada para apanhar as bananas, cientistas lançam um jato de água fria nos que estão no chão. Após algum tempo, quando um macaco vai subir a escada, os outros atacam-no. Tempos depois, nenhum macaco tenta subir a escada. Então, um dos cinco macacos é substituído. Quando o novato sobe a escada, os outros espancam-no. Surras depois, o novo integrante não mais sobe a escada. Um segundo é substituído, e a reação se repete, tendo o primeiro substituto participado, com entusiasmo, da surra ao novato. O terceiro, o quarto e o último integrante são gradativamente substituídos, com igual reação dos demais. Agora são cinco macacos que, mesmo nunca tendo tomado banho frio, espancam quem tenta chegar às bananas. Se perguntássemos a um deles por que eles agem assim, a resposta seria: "Não sei, as coisas sempre foram assim por aqui…"

Assim somos nós, seres humanos. De tanto escutar, acabamos por acreditar em opiniões alheias e conceber paradigmas, modelos de funcionamento das coisas. Sem pensar, incorporamos pré-julgamentos, rótulos e pré-conceitos. Paradigmas impõem limitações, impedem a criatividade e rechaçam mudanças que fujam ao conhecido. Somos naturalmente avessos a alterações do status quo: nossos limites pessoais não estão em condições físicas, intelectuais, ou ambientais, mas nos paradigmas que criamos para eles.

Ditados populares traduzem a resistência. “Em terra de cego, quem tem um olho é rei” é uma apologia à mediocridade, pois aceita uma pequena diferença em relação ao outro como declarada hegemonia. Será verdade? E o que aconteceria com quem tivesse os dois olhos? Seriam vistos como ameaças e rechaçados apesar da incontestável habilidade extra? Cegos se habituam à situação do não-ver e compensam a deficiência com hiperdesenvolvimento dos outros sentidos: tato, olfato, audição... Para mim, em terra de cego, alguém com um olho seria diferente, caolho, nunca rei. O ciclope poderia disfarçar com óculos ou arrancar o próprio olho para igualar aos demais... Ou se resignaria em ser um ser deslocado, patinho feio, ser em extinção... Enfim, em terra de cego, quem tem um olho vê cada coisa!!!

Em terra de olho, quem tem um cego... ops, ERREI! O desafio é desaprender o aprendido e desenvolver a sabedoria de olhar adiante, ver além. Mudanças sempre vão ocorrer, quer estejamos preparados para elas ou não – o mundo é um sistema dinâmico. Um bom exercício de auto-desenvolvimento é a ruptura de paradigmas, abandono de julgamentos, desqualificação de rótulos, na redescoberta contínua do mundo.

Exercendo a criatividade, testamos novas abordagens. Em terra de cego, quem tem cinema é doido; quem tem piano é Ray; oftalmologista morre de fome, cachorro é guia e degrau é tragédia...

E o pior SEGO é aquele que não quer ver.

domingo, 14 de setembro de 2008

Veja Especial 40 anos


“Quem sou eu? Ah, como me espanto. Nasci pequeno e cresci aos poucos. Só mais tarde cheguei aos extremos.” Millor Fernandes




Em casa de vestibulando, pais são os últimos a saberem das novidades. A edição especial da revista Veja foi distribuída para assinantes em 06/09. A nossa só foi liberada para uso comum quatro dias depois, mesmo assim com a recomendação de devolução tão logo fosse lida.


A citação que abre este texto foi retirada da edição comemorativa dos 40 anos de Veja. Assim Millôr se apresentou aos leitores em 68. Poderia bem ser a apresentação da revista, cuja primeira edição chegou às bancas em 11/09/68. Hoje é a terceira revista de informação mais lida do mundo (a primeira fora dos Estados Unidos) e distribui 1,2 milhões de exemplares semanalmente. Estão lá trechos das principais entrevistas das páginas amarelas no período. Em 1980, um modesto Carlos D. Andrade considerava sua obra falha. Tarsila do Amaral explicou, em 72, que pintou Abaporu apenas para assustar Oswald de Andrade. Médici, em 84, afirmava ter acabado com o terrorismo no Brasil (!). Lá estão a logística e todas as capas da revista, as melhores frases e imagens e um folder destacável das 40 coisas que mudaram nossas vidas em 40 anos.


300 páginas fazem uma retrospectiva dos principais acontecimentos do país, do mundo e da publicação semanal nas últimas quatro décadas. As reportagens dão ênfase a 68, um ano especialmente fértil para o hindsight jornalístico: passeata dos 100 mil, movimento estudantil, terrorismo, AI 5, censura prévia à informação... O passeio pelas décadas permeia informações atuais e a posição da publicação na época. Desemboca em 2008, num excelente quadro comparativo do índice de desenvolvimento humano, telecomunicações, transporte, energia, família, religião, entre outros temas. A maior parte dos anunciantes entrou no “espírito da coisa” e usou o tema 40 anos para divulgar seus produtos.


A edição histórica merece ser lida e guardada com carinho. Imperdível e indispensável.


Edição Especial Veja 40 anos

Ano 41 ( Veja 2077) – setembro de 2008

Editora Abril
ncas) : R$10,00

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Cartas da mãe do Henfil




Tive o primeiro ( e único) confronto com meu pai aos 14 anos. Insatisfeita com a escola onde estudava desde os 4, eu queria fazer o 2o grau em um colégio universitário. Ele desaprovava a idéia não por elitismo, mas por zelo: eram os anos de chumbo, muito mais plúmbeos num campus. Felizmente, a ditadura não atingiu a sua mente e ele cedeu. Não arrependi da resistência: na nova escola, desenvolvi o senso crítico político, a percepção para as artes e amizades definitivas. Por causa daquela discussão, escrevo esta resenha.

O filme é “Cartas da Mãe”, premiada crônica do país dos últimos 30 anos. Entre o fim dos anos 70 e início dos 80, o jornalista Henfil escreveu crônicas em jornais e revistas, usando o tom intimista de um filho que fala à mãe. O título era invariavelmente “Cartas à mãe”. Ferrenho defensor da democracia, ali criticava, protestava, cobrava posições. No filme, a voz em off lê alguns desses textos com críticas inteligentes sobre política, fé, medo. Ao mesmo tempo, imagens atuais do país fazem ponte entre o passado recente e a contemporaneidade.

Gênio do traço, Henfil também marcou história pelo uso da linguagem dos quadrinhos para crítica e comprometimento social. No documentário, personagens criados por ele, como o cruel Fradim ( inventor do top top), a ave Graúna, o “social” Zeferino e o bode Orellana são os mestres de cerimônia. Luís Fernando Veríssimo, Angeli, Laerte, Zuenir Ventura e Lula descrevem o crítico mordaz do comportamento político como amigo, solidário, meigo. Ali surgem inconfidências. Ali fica patente a esperança que o cronista nutria de um futuro iluminado para o país e para si próprio.

Para Henfil, o futuro acabou cedo, aos 43 anos, por complicações da AIDS, justamente quando a democracia, pela qual sempre lutou, era restabelecida no país. Quanto ao futuro do país, permanece duvidoso: Lula, em discurso na semana passada, reproduziu um velho jargão político do regime militar: “ Ninguém segura este país”. Em outras ocasiões, ele já havia elogiado o planejamento econômico dos governos Geisel e Médici. ( Fui eu ou Lula quem perdeu algum capítulo desta História?)

O filme é imperdível para quem gosta de crônicas, para quem gosta de refletir, para quem gosta de pensar o Brasil. Aprecie sem moderação.

Filme: Cartas da Mãe
Gênero: Documentário/ 2003
Duração: 28 minutos
Diretores: Fernando Kinas e Marina Welles
Você assiste
gratuitamente no site
http://www.portascurtas.com.br/

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Duplas explosivas

O mundo acontece aos pares e a felicidade só tem graça dividida. Pena que certos duos funcionem tão mal: visão dupla, dupla personalidade, dupla de um... Dupla atribulação é pior que dupla tributação: quando minha filha teve meningite, contraí dupla pneumonia. Por sorte, ambas recuperamos, o que me obrigou a ouvir os álbuns duplos de Sandy e Júnior por toda a longa infância dela. Gosto não se discute, eu sei, mas penso que duplas musicais quase nunca dão certo. Pior, só a combinação dupla sertaneja e dor de cotovelo...




Há duplas literalmente explosivas: Mentos e Coca-Cola, dor de barriga e gripe, gasolina e fósforo, URSS e EUA, Fat Man e Little Boy, pimenta e tequila, FARC e Hugo Chavez... Chimarrão na praia e sol de verão, só gaúcho explica.


Em certos pares, um sempre se dá mal: Tom e Jerry, Caim e Abel, insônia e medo, carência e belas palavras, dia de pagamento e liquidação na loja favorita, paquera e escritório ( roupa sexy e trabalho, meninas, só dão trabalho – a menos que este seja o trabalho, claro). Outros são como água e óleo: americana e biquini, Quércia e Serra, rotina e casamento, samba e inglês. E vamos combinar: ti e você no mesmo poema definitivamente não combinam!


Quem tem errado feio na combinação é o álcool, que certamente já viveu momentos mais populares. O etanol é acusado de diminuir a oferta de comida do mundo, apesar de usar apenas 1% da área agriculturável do país. Crê quem bebe ou está mal informado: o vilão é a dose dupla de protecionismo e subsídios distorcidos dos países desenvolvidos, não o biocombustível. Já a combinação da bebida é soda: promove estragos na beleza e saúde com o cigarro; na estrada, com direção; e na reputação, com o estômago vazio. Bebida e sexo são como roda gigante, tanto sobe quanto desce. Vodca e jornalista russo ocioso dá no que deu: a notícia que Putin tinha se separado para ficar com a jovem ginasta russa espalhou-se pelo mundo rapidamente e provocou o fechamento do jornal. Bem feito: para agüentar tanto boato irresponsável da imprensa, só com dupla caipivodca. De lima da Pérsia e sem açúcar, por favor.


Em duplas explosões os efeitos potencializam e fica difícil localizar o epicentro. Sobra para terceiros que nada tinham a ver com o pato. Oceano e terremoto dá maremoto; conflito da ditadura chinesa e monges tibetanos, boicote às Olimpíadas. Da combinação diarréia e cartas da esposa e amante saiu o Independência ou Morte. Na dupla água salgada e areia, sofre o aparelho de som; no confronto de bens e amor, os filhos. Tratar fungos com simpatia faz mal aos pés; tratar dengue com negligência faz mal aos cariocas. Corrupção e impunidade: quem implode é o povo; acusação e anonimato: o injustiçado. Comida gostosa mais fome: sobram gordurinhas.


Algumas duplas não combinam, mas insistem. Minha tia casamenteira aconselhava: se não combina, é porque te completa. É mentira, não entre nessa. Política, por exemplo, não combina com futebol ( FIFA e ministro Zico, recorda?), religião ( dos Garotinhos e Benedita não se esquece), ou interesses pessoais ( agora Cid Gomes vai lembrar). Público e privado detonam sempre.


Política brasileira desanima e a gente pensa como seria bom ganhar sozinho na Dupla Sena e bater asas, numa via de mão única... dupla ilusão. Prefiro aguardar para celebrar a goleada do Cruzeiro sobre o Galo no próximo jogo da rodada dupla ( domingo passado foi 5 x 0 para nós!) ... dupla emoção.


Então, ficamos assim, o dito pelo não dito... Viu só no que deu a dupla explosiva falta de assunto e vontade de escrever? Uma bomba!

Me chama de lagartixa



Neste celeuma entre criacionistas e evolucionistas eu não meto o bedelho. Nem de Eva, nem do macaco: no que diz respeito a mim, descendo diretamente da lagartixa (e, por conseguinte, do dinossauro, de quem ela é a versão bonsai). São muitas as parecenças. Como lagartixa, não tenho o rabo preso e, muitas vezes, uso do mimetismo para passar desapercebida. Mas é no quesito amoroso que meu coração de DNA rabo-de-lagartixa se manifesta em plenitude: tantas vezes decepado quantas vezes auto-regenerado.
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Férias na praia, primeiro namorado, ambos com 14 anos. Eu, uns 5 cm mais alta que ele. Em pleno estirão da puberdade, ele cresceu uns 15 cm enquanto namorávamos. Um dia, seca e inexplicavelmente, ele terminou o namoro e a lagartixa enfiou o primeiro rabo-cotó entre as pernas. Anos mais tarde, num encontro casual, P. revelou que quem tinha rompido comigo fora o irmão, gêmeo idêntico. Não perguntei o motivo: vai ver, eu não estava mais à altura deles.
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Escola nova, eu com QI de ameba em Física. Tão péssima que a escola indicou um instrutor para acompanhar meus estudos. F., estudante de engenharia, fez o que pôde e acabou rolando uma química entre nós. Foram vários foras seqüenciais em que F. terminava comigo para namorar minha colega Nair. E vice-versa. Um dia, num lampejo de lucidez, Nair e eu fizemos um pacto de não aceitar mais tamanha indecisão. De herança, ficou a grande amizade entre as duas lagartixas cotós, que resiste até hoje.
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Conheci R. numa festa no clube. Ele, estudante de Direito, já tinha a lábia dos catedráticos. Éramos completamente diferentes: ele, refinado, elegante, apegado ao material; eu, adepta do estilo simples, meio riponga, mais interessada no espiritual. O mimetismo da espécie ancestral fez-me adaptar ao seu estilo. Pena que R. não conseguia se adaptar ao estilo monogâmico. Foram anos de foras, seguidos de lágrimas de crocodilo de arrependimento. Eu subia pelas paredes, mas, acadêmica de Medicina, compreendia a força dos hormônios masculinos e sempre o aceitava de volta. Um dia, a gota dágua: furtiva como uma lagartixa, deixei na lata de lixo do banheiro de um restaurante um pé de um sapato de grife dele (couro de crocodilo, claro!) e o restinho do meu amor. Ele saiu do local mancando. Meu coração, manco, enfim saltitava.
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Na residência médica conheci outro R., urologista. Paixão arrebatadora, daquelas bem fulminantes. Eu estava nas nuvens. Ele estava há poucos meses do casamento. Me joga na parede, me chama de lagartixa, mas não faz isso comigo! Ele fez, sem coragem de romper com o compromisso assumido. E a lagartixa achou que ia morrer, que tinha usado a sua última regeneração do rabo-coração. Quando ele se separou e me procurou novamente, encontrou um coração sobrevivente, reconstituído e destinado a outro.
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Foi como lagartixa profissional que conheci A., numa escola de idiomas. Eu, professora. Ele, meu aluno na turma dos sábados. Sou lagartixa, mas nunca tive sangue de barata: a primeira coisa que me chamou a atenção foi a reluzente aliança na mão direita dele. Definitivamente avessa a noivos, nem simpática eu conseguia ser. Um ano depois reencontrei Alexandre, casualmente, num jogo de tênis. Não havia mais aliança ofuscando a minha visão e as duas lagartixas reconheceram-se e casaram-se em poucos meses. Junto à lagartixa-mãe, uma nova linhagem de lagartixas adolescentes, de pedigree duplo, celebrou ontem, ao sol, o primeiro jubileu do patriarca.
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É como dizem: quem nasceu pra lagartixa nunca chega a jacaré.

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